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FATO RELEVANTE
Beta-bloqueadores no perioperatório de intervenções cirúrgicas
não cardíacas – os novos dados do estudo POISE
No dia 13 de maio a revista britânica The Lancet publicou, em
seu site os resultados do estudo POISE e com isso iniciou um
intenso debate que envolveu médicos, repórteres e pacientes. O
estudo POISE é, até agora, o maior estudo clínico já realizado
para investigar o papel dos beta-bloqueadores no perioperatório
de intervenções cirúrgica não-cardíacas. Os mais de 8.000
indivíduos incluídos foram aleatorizados para receber metoprolol
ou placebo. É importante salientar que somente as intervenções
cirúrgicas eletivas foram analisadas e pacientes que já faziam
uso de beta-bloqueador por outras razões, não foram incluídos
neste estudo. Com relação aos desfechos cardiovasculares, como
morte cardíaca e infarto não fatal, o POISE revelou resultados
semelhantes aos estudos anteriores com menos pacientes: o grupo
que recebeu metoprolol apresentou incidência de complicações
significativamente menor do que o grupo controle. Por outro
lado, o que chamou a atenção dos investigadores foi o resultado
da análise dos desfechos secundários, morte por todas as causas
e acidente vascular cerebral (AVC). Nesta análise, os pacientes
que receberam metoprolol apresentaram taxas maiores de
complicações. Segundo os autores, a hipotensão e a bradicardia,
mais frequentes no grupo que recebeu metoprolol, teriam sido
responsáveis pela maior ocorrência de complicações, em especial
AVC. A interpretação desses dados fez os investigadores do POISE
concluírem que o uso de metoprolol no ambiente perioperatório é
capaz de reduzir a chance de complicações cardiovasculares, MAS
a um custo muito elevado: aumento da chance de morte ou de AVC.
Os autores do trabalho acrescentaram que as recomendações
relativas ao uso de beta-bloqueadores contidas nas diretrizes de
tratamento perioperatório deveriam ser reformuladas. O editorial
que acompanha o artigo recomenda, entretanto, cautela com
relação a esta decisão. Aponta problemas com relação à escolha
da dose de metoprolol adotada pelo estudo POISE (100 mg na
primeira dose, atingindo 200 mg por dia) ou seja, 50% da dose
máxima permitida para esse medicamento. Segundo o editorial,
esta dose é muito mais alta do que a utilizada em estudos
anteriores, o que poderia explicar a ocorrência de hipotensão e
bradicardia. De fato, a análise dos dados do POISE, incluindo o
material adicional oferecido pelos autores e disponível no site
da revista, revela que não foi desprezível o número de pacientes
que desenvolveu hipotensão e bradicardia. Hipotensão e
bradicardia, embora possam representar complicações
potencialmente graves, quando prontamente reconhecidas e
tratadas por meio de suspensão do beta-bloqueador e medidas para
elevação da freqüência cardíaca e da pressão arterial, não estão
associadas a elevações significativas de taxas de complicações.
Estas conclusões provêm de estudos com pacientes na fase aguda
do infarto agudo do miocárdio onde os beta-bloqueadores têm seu
benefício comprovado, mesmo numa situação onde a hipotensão e
bradicardia poderiam reduzir perfusão coronariana e aumentar o
tamanho do infarto. Como lidar então com as informações do POISE
aparentemente contraditórias aos conceitos arraigados e, mais
importante, em conflito com a fisiopatologia das complicações
cardiovasculares e com os mecanismos de cardio-proteção dos
beta-bloqueadores? Mais uma vez, com cautela. Aqui vão algumas
recomendações:
1. Os indivíduos em uso prévio de beta-bloqueador não foram
incluídos no POISE. Este indivíduos NÃO devem ter o
beta-bloqueador suspenso antes de intervenção cirúrgica não
cardíaca.
2. TODOS os indivíduos que fazem uso de beta-bloqueadores no perioperatório de intervenções cirúrgicas não cardíacas devem
ser rigorosamente monitorizados com relação à ocorrência de
hipotensão e bradicardia. Caso uma destas complicações seja
diagnosticada, o medicamento deve ser prontamente suspenso e
devem ser estabelecidas medidas para sua correção.
3. Enquanto aguardamos análise mais detalhada dos dados do
estudo POISE, recém publicado, as recomendações relativas ao uso
de beta-bloqueadores no perioperatório de intervenções
cirúrgicas não cardíacas devem ser mantidas.
Bruno Caramelli
Daniela Calderaro
Pai Ching Yu
Danielle Menosi Gualandro
Andre Coelho Marques |