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.: Qualidade da imagem em cardiologia nuclear

Físico Ilo de Souza Baptista
ilosbaptista@terra.com.br
Cardionuclear
Phymed consultores em física médica


A busca por alterações no padrão anatômico e funcional normal de órgãos e sistemas do corpo humano é o princípio de toda técnica de diagnóstico por imagem. Na medicina nuclear, estas alterações são evidenciadas através da biodistribuição de um radiofármaco no organismo. O resultado final é uma imagem, que será analisada visualmente e/ou quantificada por softwares específicos, municiando o médico nuclear de informações que serão utilizadas para a geração do laudo cintilográfico.

Portanto, todo esse processo converge para um ponto crucial: como saber se aquela imagem que está sendo visualizada na tela do computador, ou no filme impresso, tem condições de mostrar o que deve ser mostrado? Será que o sistema de formação de imagem está em condições de gerar imagens com qualidade satisfatória? Será que a região de menor intensidade na imagem é realmente uma área isquêmica cardíaca? E sua extensão está sendo bem avaliada? Somente um processo pode responder estas questões: o controle de qualidade da imagem cintilográfica, que irá proporcionar maior segurança para o médico nuclear de saber que aquilo que ele está enxergando na imagem é realmente um indicativo de patologia.

Atualmente, quase todas as técnicas de diagnóstico por imagem utilizam sistemas complexos de geração, manipulação e arquivamento de informações digitais. A cintilografia também é dependente de uma instrumentação cada vez mais sofisticada, sendo a mais importante a própria gama câmara. A gama câmara é um detector de radiação do tipo cintilador que é muito dependente de parâmetros físicos e de tabelas de correção, que são utilizadas em todos os processos de formação de imagem, logo, pequenas variações nestes parâmetros podem acarretar uma grande deterioração da qualidade da imagem produzida, podendo esconder uma lesão onde ela realmente existe (falso negativo) ou criar padrões patológicos onde de fato não há (falso positivo).
 
De acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) o controle de qualidade da imagem faz parte de um sistema de garantia da qualidade cintilográfica, que a própria AIEA define como “quão próximo os resultados de um determinado procedimento se aproximam do ideal, livres de erros e artefatos”. Porém a avaliação do procedimento cintilográfico é muito delicada, sendo necessários vários ensaios para que cada parâmetro utilizado no processo de formação de imagem seja testado e aprovado. Quando isso não ocorre estaremos a mercê de variações desagradáveis e desinteressantes para o médico nuclear que irá interpretar a imagem.
Muitos protocolos definem estes testes de controle de qualidade, a AIEA, a National Electrical Manufacturers Association (NEMA) e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) indicam os ensaios mínimos para uma gama câmara. A CNEN, entretanto, define os testes obrigatórios para um serviço de medicina nuclear, que devem gerar os registros de controle de qualidade, estando já defasada para a atual tecnologia dos equipamentos. As próprias fabricantes de gama câmara definem protocolos de controle de qualidade próprios, que muitas vezes são insuficientes para um controle ideal da qualidade da imagem.

Uma das investigações cintilográficas mais sensíveis a estas possíveis variações é a cintilografia miocárdica, pois além de proporcionar a análise visual das imagens adquiridas por técnica de tomografia computadorizada por emissão de fóton único (SPECT), ainda são obtidos uma série de valores quantitativos importantes para o diagnóstico final, dentre estas, as informações obtidas pela sincronização da imagem com o eletrocardiograma (ECG) do paciente, o gated-SPECT, ou os mapas de correção de atenuação através de fontes de transmissão externa.

Existe uma grande quantidade de testes que avaliam o desempenho de uma gama câmara, porém alguns são mais aplicados diretamente à cardiologia nuclear, podendo ser citado:

• Análise da uniformidade planar: teste mais simples para ser realizado porém de muita importância, verifica e avalia pequenas variações da uniformidade em toda a área útil do detector, devendo ser realizada intrínseca (sem colimador) e extrinsecamente (com colimador). Periodicidade recomendada: diária;

• Verificação do centro de rotação do sistema (COR): esta avaliação é de extrema importância para sistema SPECT. Como a imagem é adquirida de maneira tomográfica, pequenas variações no centro de rotação do sistema, imperceptíveis a olho nu, podem ocasionar problemas na reconstrução tomográfica das imagens, gerando artefatos que invalidam o método. Periodicidade recomendada: semanal;

• Análise da resolução espacial do sistema: com a utilização de simuladores (Phantoms) pode-se analisar a resolução espacial e também determinar as dimensões do menor objeto detectável, bem como se existem distorções no sistema de registro da imagem. Periodicidade recomendada: semanal;

• Verificação de sincronia com o ECG: na cardiologia nuclear, uma das informações mais importantes obtidas pela cintilografia é a fração de ejeção cardíaca. Esta informação só pode ser obtida se existe a real sincronia da obtenção das imagens com o sinal de ECG do paciente, mais precisamente com o intervalo R-R. Periodicidade recomendada: mensal;

• Testes tomográficos: talvez sejam os mais importantes, pois tornam-se mais sensíveis a pequenas variações que não foram encontradas em testes mais simples. Os testes tomográficos utilizam simuladores especiais como o “Carlson” ou o “Jaszczak”. Como estes simuladores possuem inserções que simulam lesões “quentes” e “frias” de diferentes dimensões, permitem avaliar de maneira separada várias condições tomográficas do sistema como um todo. Uniformidade tomográfica, resolução espacial tomográfica, contraste tomográfico, centro de rotação, são alguns dos parâmetros que podem ser avaliados com este teste. Periodicidade recomendada: mensal;

• Análise da uniformidade do mapa de transmissão: é uma espécie de análise de uniformidade, porém, ao invés de utilizar uma fonte pontual, utiliza-se a própria fonte de transmissão. Sua importância não está tão somente na análise de uniformidade da resposta, mas é imprescindível para os cálculos matemáticos de correção de atenuação dos tecidos. Periodicidade recomendada: diária.

Portanto, ao interpretar uma imagem obtida por uma gama câmara, o médico nuclear está levando em consideração que todos os parâmetros necessários para a obtenção de uma imagem de boa qualidade estão controlados, e que a confiança no físico responsável pelos testes de controle de qualidade traz segurança e conforto, para que possa proporcionar ao paciente um resultado preciso e que realmente irá contribuir de maneira significativa para a sua conduta terapêutica.


Referências bibliográficas:

1. National Electrical Manufacturer’s Association (NEMA).Performance measurements of scintillations camera. Standards publications no. NU1-1994.

2.   International Atomic Energy Agency (AIEA). Quality Control of Nuclear Medicine Instruments 1991 . IAEA TECDOC Series No. 602.

3.    DePuey EG, Garcia EV, Berman DS. Cardiac SPECT Imaging. 2nd ed.,2001.

      

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