.: Caso Clínico
Luiz Eduardo Mastrocolla, João Vicente Vitola e
Gabriel Blacher Grossman
luiz.Mastrocolla@fleury.com.br
Paciente do sexo masculino, 55 anos , apresentou dor
paravertebral esquerda há 40 dias, incaracterística, durante partida de tênis.
Como fatores de risco, apresenta estresse, idade e antecedentes familiares. O
exame clínico não apresenta anormalidades, sendo solicitada cintilografia
miocárdica pelo médico assistente.
Realizou protocolo de Bruce, atingindo o estágio
II (tempo total = 4 min e 30 seg), com dor reprodutível da história clínica e
alterações morfológicas de ST de grande magnitude (-5 mm em CM5), acometendo
múltiplas derivações (Figura 1). De modo concomitante, observou-se queda da
PAS de 20 mmHg , além de sinais de vasoconstrição periférica, palidez facial e
dispnéia desproporcional ao esforço. Tc-99m sestamibi foi injetado (30mCi) na
FC de 138 bpm (83,6% da FMáx). Devido às modificações descritas, permaneceu
caminhando apenas por 30 seg. Houve persistência das modificações de ST
(aspecto descendente, infradesnível de ponto J até 1,5 mm) até a fase final de
recuperação, mas com estabilização progressiva do quadro clínico. O escore de
Duke foi de alto risco, indicando chance de eventos maiores (morte) >
que 4 % ao ano.
As imagens da etapa de estresse evidenciaram hipoperfusão transitória acometendo toda a extensão da parede anterior,
septo interventricular e ápice. Notar cavidade ventricular esquerda dilatada
em comparação ao repouso , com TID = 1,41 podendo indicar atordoamento
induzido pelo esforço. Na avaliação do mapa polar de perfusão representativo
da fase de esforço, a extensão da área envolvida está estimada em 31%,
confirmando a probabilidade de alto risco de eventos. Os escores
semi-quantitativos (SSS = 22; SRS =0 e SDS = 22) confirmam os achados
descritos para a caracterização de grande quantidade de miocárdio em risco
(Figura 2). A motilidade estava alterada nas regiões ânterior, ântero-septal e
ínfero-septal, com fração de ejeção de 50% na fase pós–estresse (não realizada
antes do exercício), com VDF = 77 e VSF = 38 ml.
Foi realizada cinecoronariografia que demonstrou
tronco de coronária esquerda ocluído, coronária direita pérvea e circulação
colateral enchendo retrogradamente as artérias descendente anterior esquerda e
circunflexa, além de função ventricular aparentemente normal (FE 82%) (Figura
3). Nota-se que na cintilografia de perfusão a parede lateral está
aparentemente perfundida em sua normalidade indicando provável reserva
coronária mantida durante o esforço (circulação colateral protetora).
Foi submetido à cirurgia de revascularização
miocárdica no dia seguinte, com pontes para coronária direita, marginal 1 e
descendente anterior esquerda, evoluindo sem intercorrências no
pós-operatório.
A cintilografia de perfusão e função miocárdica
no seguimento pós-operatório de um ano aproximadamente evidenciou praticamente
a normalização da perfusão a não ser por discreta hipoperfusão na porção
proximal da parede anterior e ápice (Figura 4). O paciente atualmente está
assintomático, com grande melhora da capacidade funcional no teste
ergométrico, normalização da curva pressórica, do comportamento clínico e
ausência de alterações eletrocardiográficas expressivas. Notar, em relação à
prova pré-operatória, a normalização da perfusão (praticamente a totalidade),
com escores dentro da normalidade (Figura 5), além de normalização do TID, com
alterações da motilidade não valorizadas (pós-operatório) e melhora da fração
de ejeção (72%)
Em pacientes considerados com probabilidade
pré-teste intermediária de doença, a presença de hipoperfusão de graus
variados durante a cintilografia miocárdica, caracterizando áreas de risco
progressivamente maiores por análise semiquantitativa, evidenciam valor de
previsão crescente para morte e infarto do miocárdio não fatal no seguimento
clínico. O caso apresentado é ilustrativo das diversas variáveis que indicam
mau prognóstico e que podem ser encontradas em um exame de cintilografia
miocárdica de estresse com exercício, sejam elas durante o teste ergométrico
(a baixa tolerância ao exercício, a queda da pressão arterial sistólica, as
modificações morfológicas de ST/T de grande magnitude em cargas iniciais de
esforço e acometendo múltiplas derivações), e/ou durante a análise do estudo
da perfusão miocárdica (escores elevados de severidade, isquemia extensa e
dilatação transitória da cavidade ventricular esquerda). A despeito do achado
de oclusão de tronco de coronária esquerda, colaterais provenientes da
coronária direita provavelmente estiveram implicados na proteção da perfusão
na parede lateral durante o estresse e da função ventricular sistólica em
repouso, o que pode explicar a discordância entre modalidades que avaliam
anatomia versus fisiologia (angiografia x cintilografia de perfusão
miocárdica). Finalmente, frente a pacientes caracterizados como de alto risco,
a conduta obrigatória dentro do processo de decisão clínica é a
intervencionista, no sentido da busca da melhora da sobrevida.
Referências
1. Hachamovitch R, Berman DS, Shaw
LJ, et al. Incremental prognostic value of myocardial perfusion SPECT for the
prediction of cardiac death: differential stratification for risk of cardiac
death and myocardial infarction. Circulation 1998; 97:535-543
2. Vitola JV, Delbeque D, Smith AS,
Pereira Neto CC, Martin WH, Habibian MR. Myocardial Perfusion Imaging.
Detection o of Coronary Artery Disease and Miscellaneous Clinical Aplications.
In Vitola JV, Delbeque D, Ed. Nuclear Cardiology & Correlative Imaging. A
Teaching File. Springer - Verlag New York, LLC 2004, 121 - 124.

Fig. 1
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Fig. 2
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Fig. 3 [a]
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Fig. 3 [b]
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Fig. 3 [c]
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Fig. 3 [d]
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Fig. 4 |

Fig. 5 |
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