Recém formado, participei de um curso de Psicologia Experimental no Rio de Janeiro, ministrado pelo professor Marcel Desmarais, doutor em Psicologia e Filosofia pela Universidade de Paris. Canadense, radicado no Brasil, era um extraordinário especialista nesse campo. Segundo o sumário distribuído, o curso destinava-se a popularizar noções psicológicas de interesse prático e úteis na vida cotidiana. Entretanto, para mim, foram lições de extraordinário valor, que abriram horizontes jamais imaginados de compreensão do ser humano, de pensar o doente como um todo e não simplesmente a doença e suas conseqüências. Ensinava como adquirir a alegria de viver, de vencer o pessimismo e a amargura que rondam o homem contemporâneo. Enfim, tratava-se de ciência e arte de conquistar a felicidade através do equilíbrio mental.
Ilustrava suas aulas com exemplos e comparações. A última foi dedicada ao estudo da "educação da vontade". Pediu aos médicos presentes que não esquecessem esses ensinamentos, procurando fazer deles o bê-á-bá de suas jornadas cotidianas. Contou uma historieta: alguns pesquisadores americanos estudavam animais fósseis e restos petrificados de seres humanos num deserto próximo ao Iraque, na antiga Mesopotâmia. Deslocavam-se, diariamente, a grandes distâncias, sempre cavando e procurando essas relíquias do passado. Eram acompanhados por um grupo de árabes, que participava dos trabalhos braçais. À noite, os mulçumanos armavam suas tendas e, ao longo das horas seguintes, rezavam e entoavam canções dolentes, lembrando amores e famílias distantes. Ao amanhecer, desarmavam as tendas e seguiam por longos e cansativos percursos no deserto.
Uma manhã, os americanos acordaram e os árabes estavam sentados, cabisbaixos, conversando; as tendas continuavam no mesmo lugar. Os cientistas imaginaram: será que se tratava de uma rebelião dos condutores de camelos? O pesquisador-chefe interrogou rispidamente os árabes: Por que não estavam prontos para a jornada? O que significava tudo aquilo? Responderam: Senhor, estamos andando muito depressa, nossas almas não estão acompanhando nossos corpos. Vamos parar, hoje, para dar um tempo e esperar que os espíritos se juntem outra vez aos nossos corpos.
Os cientistas ficaram desesperados. Tinham um cronograma a cumprir, uma execução de trabalhos com prazos definidos. Pediram, insistiram, ofereceram um montante de dinheiro a mais! Nenhum resultado. A fé dos muçulmanos exigia reflexão e orações que não vinham sendo feitas, devido à pressa da caminhada. Ficariam parados, ali, até que essa situação estivesse resolvida. A contra-gosto, a decisão de religiosidade foi aceita.
O professor aproveitou essa historieta para mostrar o quanto vale ter posições definidas, como saber querer
e querer com força. A educação da vontade é uma ponte entre o psiquismo e as ações materiais.
O mestre concluiu: "Através da Psicologia vocês poderão adquirir a força necessária para equilibrar-se neste mundo tão desequilibrado; e, poderão ter nela, valioso apoio no desempenho de uma medicina cada vez mais humana".
José Medeiros
médico e ex-Secretário
de Saúde e de Educação