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Esperando Vinicius
Estou em vias de ser avô pela terceira vez. Vinicius, tão
desejado e esperado, está chegando. Talvez na força da lua, como
ainda acreditam os mais velhos. A sua mãe, minha primogênita
(melhor que filha mais velha), resiste bravamente na luta
cotidiana, carregando uma enorme e bela barriga. Resolveu
esperar Vinicius trabalhando incessantemente. Quem sabe para
vencer a ansiedade? Estado esse que já se transmite a toda
família: em minha casa toda vez que o telefone toca fora de hora
Inês sempre se pergunta: será o Vinicius chegando?
Hoje o costume (moda) é programar o dia do nascimento e
rapidamente realizar um parto cesariano. Minha filha desejou ser
mãe à moda antiga. Com a aprovação total de sua obstetra,
desejou sentir a emoção de um parto normal. Deseja contar para
Vinicius sobre “as dores” de um nascimento quase natural.
Vinicius, que parece já ter percebido tudo, aproveita do
conforto da vida no interior do útero e vai retardando ao máximo
a sua chegada, deixando impaciente o Bruno, que já não consegue
esconder também a sua ansiedade. Até Heitor (o inteligente
cachorro) já deve estar se perguntando por que Vinicius demora
tanto?
Quando ele chegar Annelise terá muitas histórias para lhe
contar. Certamente ela lembrará que o principal motivo que a fez
mudar os rumos de sua vida talvez tenha sido esse desejo de ser
mãe de pelo menos um filho, verdadeiramente seu. Lembro-me do
período em que seu coração não admitia essa possibilidade, e
desejava ter um comprometimento com uma realidade maior. Desejou
certa feita ser solidária com muitos “filhos” que nunca seriam
seus. Vinicius também não será seu, minha filha, um dia ele vai
cortar as amarras, que são mais tênues que as do cordão
umbilical, e, vai escrever a sua própria história. No entanto,
essa experiência de gerar vida, dentro do próprio interior,
recupera o sentido de ser mulher como foi Maria mãe de Jesus.
Vinicius será o seu Jesus.
Enquanto escrevia sobre a vinda de Vinicius, percebi que estava
sendo embalado pelos acordes de Chico Buarque entoando a
história de Pedro Pedreiro que esperava o trem. Dentro da
música, de repente, surge a figura da mulher de Pedro, que
esperava um filho, para esperar também. Isto me fez lembrar que
o melhor de tudo é mesmo o tempo da espera. Você está vivendo o
advento de Vinicius e logo vamos todos celebrar o Natal.
A vida de todos nós tem um pouco da vida de Pedro Pedreiro, que
mais que pedreiro foi “penseiro”: “esperou o trem, esperou a
sorte, esperou o dia de voltar pro norte”. Até que um dia, de
tanto esperar, desejou apenas ser pedreiro e ficou na esperança:
“aflita, bendita, infinita, do apito do trem (que já vem, que já
vem)”. Vinicius virá.
Então, minha filha, não tenha pressa e nem fique aflita com esse
tempo de espera. Viva esse tempo presente, que é mesmo o da
espera e não o da chegada. É o tempo preparatório para que você
possa viver a emoção de ter emprestado o seu útero à vida.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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