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"Via-crucis" da Literatura Nordestina
*José Medeiros
Não pude comparecer ao 1º
Congresso das Academias de Letras do Nordeste, realizado em
Recife, promovido pela Academia Pernambucana de Letras, que é
dirigida pelo médico escritor Waldênio Porto. A Sociedade
Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames/AL) foi convidada
para esse evento. As temáticas propostas foram bastantes atuais,
em defesa do livro nordestino, sua produção, distribuição,
divulgação e comercialização. Apesar da efervescência do meio
cultural nordestino, que se configura de maneira prática em
milhares de obras literárias publicadas anualmente, elas ficam
circunscritas aos locais de origem. Nomes ilustres que nos
orgulham como Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda e
Pontes de Miranda, fizeram carreira lítero-cultural fora da
província.
Diz Waldênio Porto: “Assistimos desde muito tempo, a um desmonte
perverso, programado e persistente da cultura nordestina. Um
povo vale pelo que pensa. Mas o pensar da inteligência
nordestina não tem divulgação nem chega ao leitor. Escreve-se e
publica-se muito em todo o Nordeste. A venda da maioria dos
novos títulos editados limita-se – quase sempre – à noite de
autógrafos, porque não têm acesso à mídia, nem às redes de
distribuição sediadas no sul do país”.
Não faz muito tempo a representação de uma editora que chegou do
sul e estabeleceu-se em Maceió, recusava-se a vender livros de
autores alagoanos. Foram muitas as reações e protestos dos
autores. Uma das decisões do grupo era a de não mais comprar
livros naquela livraria. Meses se passaram e, felizmente,
reencontro obras de autores alagoanos, num lugar de destaque na
livraria. Antes tarde do que nunca.
Algumas das observações e recomendações desse Congresso: 1)
criação de uma Rede de Integração das Academias de Letras do
Nordeste e entidades culturais para debate e resolução de
problemas ligados à produção e comercialização do livro; 2)
Incentivos à Leitura e à formação de novos leitores como
objetivo precípuo de todas as entidades; 3) Estimular, em cada
cidade, a instituição de Concursos Anuais pela Prefeitura,
Câmara Municipal e pelas entidades representativas da cultura,
além de concursos literários nas escolas e universidades; 4)
Envolver, além das academias e centros culturais, livrarias,
papelarias, bancas de revista, escolas, professores de Português
e de Literatura, formadores de opinião, a mídia e bibliotecas
públicas.
Trata-se, sem dúvida, de um grito de alerta em favor da
literatura nordestina. Falta-nos engajamento e uma ação
abrangente para atingir esses objetivos. Entretanto, não se pode
deixar de reconhecer o esforço e as vitórias de algumas de
nossas instituições culturais.
(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde
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