Tenho refletido sobre alguns desejos que
venho sentindo recentemente, e que estão significando para mim
"clássicos sinais de velhice". Não estou julgando se
isso é bom ou ruim, portanto, não cabem avaliações sobre
preconceitos. Tenho amigos que acham isso normal, e curtem esses
desejos como naturais e engraçados. Outros, já me disseram que
não tem nada a ver com a chamada "melhor idade" e,
ficar velho, tem mesmo a ver com a "pior idade" (não
confundir com prioridade). Ainda não tenho uma opinião formada
sobre esse assunto, embora tenha refletido muito sobre isso
atualmente.
A primeira reflexão é fruto de um desejo
súbito que me domina: ando com uma incontrolável vontade de
tomar sopa. Nunca tive esse desejo, e sopa na minha vida era uma
comida improvisada. Quando chegava em casa e perguntava o que
tinha para comer e era comunicado que tinha uma sopinha me
esperando, já ficava triste, mesmo que acompanhado de uma
justificativa motivacional: "prove que está muito
boa". Agora o panorama é outro bem diferente, já chego
perguntando: e hoje qual é a sopa que prepararam para mim?
Estou tão envolvido com essa nova opção culinária, que até
essas sopas prontas estão sendo de meu agrado, desde que sejam
bem quentinhas.
A segunda reflexão é sobre o desejo de
comer uma papinha no café da manhã. Gostar de papa não é
novidade, mas esse desejo só aparecia quando estava doente (de
qualquer coisa). Agora, é como um desejo permanente. Já vou
dormir pensando "nela", e de manhã quando a encontro
pronta, de início, reclamo do tamanho (dizendo que o prato
está muito cheio), mas no final como com prazer e não deixo
nada. Numa dessas manhãs, tomei café com a Louise, que está
agora com três aninhos, e ela desejava saber o que era aquilo
que eu estava comendo. A explicação que encontrei foi a de
dizer: isso aqui é o "gogó do papai". Ela então, na
sua jovem inocência, sugeriu: "porque não toma na minha
mamadeira".
A terceira reflexão foi sobre algo que eu
nem tinha percebido. Fui surpreendido pela Inês quando ela me
perguntou pela manhã porque havia dormindo de meias (que
segundo ela acaba com o tesão). Respondi que não tinha nem
notado, e justifiquei dizendo que pelo cansaço só havia dado
tempo de tirar os sapatos e logo havia "desabado" no
sono. Aliás, "desabar no sono" pode também ser um
sinal, no mínimo, preocupante. Na verdade, estava mentindo,
dormir de meias virou uma mania, porque me deixa com os pés
sempre aquecidos, e esse, sim, parece ser um definitivo sinal de
velhice.
Ainda bem que dias atrás recebi uma notícia
que me deixa com chances de reverter essa situação: vou ser
avô. Pelo menos acho que vou poder continuar tomando a minha
papinha pela manhã, a minha sopinha à noite e, para manter os
meus pés sempre bem quentinhos, não preciso mais tirar as
meias.
Bem vindo a esse planeta terra meu já
querido netinho ou netinha (ainda não sabemos o sexo),
principalmente, porque devolverá ao vovô a juventude quase
perdida.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br