ESQUINA CULTURAL

Um (quase) preso, duas medidas


Não tenho absoluta certeza do envolvimento do irmão do Presidente nessa nova onda de denúncia. Também não tenho com ele convivência de 61 anos, conforme seu irmão Presidente afirmou em recente entrevista, para dele não desconfiar. As provas levantadas pela Polícia Federal, em gravações tornadas públicas e divulgadas pelas Mídias escrita e televisiva, parecem contundentes. O inexpressivo (até então) Vavá, fazia de fato tráfico de influência. Dizer que isso era do conhecimento do irmão Presidente é outra história, embora 61 anos de convivência fraterna possa servir (repito), como já afirmou o Presidente, para em principio dizer que ninguém é culpado antes que a Justiça apresente as provas.

Nessa história, convêm lembrar que muitos amigos palacianos (a começar pelo primeiro descoberto, o Valdomiro), estranhamente foram acusados de envolvimento com jogos de azar (ou de sorte para muitos), todos considerados como contravenção pelas leis vigentes. Onde existe fumaça podemos procurar fogo. São tantas as evidências desse tipo de associação, que fica muito difícil afirmar não ser verdadeira a plêiade de fatos documentados pela Polícia.

Vergonhosa mesmo foi a entrevista concedida pelo advogado e pelo sobrinho do Presidente. O advogado visivelmente nervoso e (suponho) propositalmente desinformado (quem sabe para amanhã ser desmentido), tentava encontrar explicações para o inexplicável. Quando a assunto tratado nas conversações entre o Vavá e os amigos meliantes presos pela Operação Navalha (que para ser verdadeira poderia começar cortando a própria carne) comprometia a imagem dele e até o envolvia mais profundamente devido a sua intimidade de 61 anos com seu irmão mais novo, ele saiu com uma desculpa de que ainda não conhecia profundamente o problema de seu cliente, e que preferia deixar sem reposta. Em outra ocasião quando foi tratado sobre a liberação de “máquinas” (que para todos significa caça níqueis), ele conhecia profundamente a questão, e imediatamente afirmou que se tratava de máquinas agrícolas de suma importância para geração de emprego no país. Uma cínica resposta, do tamanho do seu esforço para tentar demonstrar estar falando verdades sobre o que minutos atrás desconhecia.

No entanto, o melhor de tudo foi quando ele afirmou serem as acusações sobre os desmandos do Vavá improcedentes e descabidas, porque em se tratando de um homem simples e de pouca formação acadêmica (possivelmente analfabeto), não teria nenhuma condição de atuar como lobista. O medo é que a sua pouca leitura, que o impede de ser lobista, possa também um dia levá-lo à Presidência. Em outras palavras, para uma atividade é capacitado e para outra não, por isso eu digo: um (quase) preso, duas medidas.

Obs.: agora descobriram que além do compadre um outro irmão do Presidente, conhecido como Frei Chico, também foi flagrado dando uns conselhos para o Vavá. Como no Nordeste é tempo de São João, deve ser o “padre” da quadrilha.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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