Tenho sempre dificuldade para escrever alguma coisa no dia certo
em que se comemoram datas importantes, porque não coincidem com
as minhas quintas feiras, ou então porque a inspiração não
chega no momento exato. Por isso, muitas vezes escrevo antes ou
depois, parecendo falta de sintonia. Na semana que passou, fui
provocado por minha esposa para escrever algo sobre o Dia
Internacional da Mulher, e o argumento foi de que na minha vida,
especialmente em minha casa, estou cercado delas e por elas. Sou
uma pobre ilha masculina, cercada de mulheres por todos os
lados, inclusive o de cima. Respondi-lhe que estava sem
inspiração e deixaria para o outro ano.
Cenas da vida real:
Saí de casa com esse pensamento e um pouco
atrasado para o compromisso que havia assumido. Entrei num
desses congestionamentos, que depois das modificações
realizadas no tráfego, tornaram-se desgastante rotina no nosso
cotidiano. O carro que seguia em minha frente não desenvolvia a
velocidade que eu precisava para chegar em tempo ao meu
compromisso, numa avenida que não permite ultrapassagem. Pensei
com meus botões: deve ser uma mulher. Colei na parte traseira
do seu veículo e dei sinal de luz (como era de dia, não fui
atendido). Pensei novamente: essa mulher não está com pressa,
deve estar indo para a manicura ou para o cabeleireiro. De
repente, ela colocou a mão para fora, como se estivesse
sinalizando para mim alguma coisa. Pensei: deve estar desejando
entrar na próxima esquina, e logo me lembrei de que havia lido
que quando uma mulher coloca o braço para fora do carro, você
pode se convencer de uma coisa: o vidro deve estar aberto. O
resto é imprevisível.
Continuei pensando: deve estar conversando
(fofocando) ao celular com alguma amiga e, certamente,
conversando futilidade, porque algumas mulheres só conseguem
falar gesticulando. Já um pouco irritado, esbravejei: não
deviam liberar carteira de motorista para mulher. Dirigir é
coisa de homem, lugar de desocupado é em bingo filantrópico e
não no tráfego, onde apenas deviam estar pessoas ocupadas,
principalmente homens, que ainda são "os chefes e cabeças
das famílias". Cada vez mais irritado, conclui: vai ver
que está obedecendo à nova determinação de andar somente no
limite estabelecido para áreas urbanas, que é de 60km.
Resolvi então radicalizar; engatei uma
primeira e fiz uma imprudente manobra para cortar o carro
daquela "demente". Olhando pelo retrovisor, deu apenas
para perceber o olhar atônito do Osório (amigo meu), que sem
entender o que estava acontecendo, quase deixa cair o celular
que usava, descontraídamente.
Que cada dia oito de março de cada ano possa
servir como reflexão para os que ainda cultivam algum
pensamento machista. Que as minhas oito mulheres, incluindo a
sogra, continuem me cercando como a uma ilha, mantendo-me
refém, como um náufrago, sempre escravo de seus encantos e
sabedoria.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br