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O dia em que troquei a Tereza pela Clara
Estava na sala de espera do aeroporto de Maceió aguardando a chamada de meu vôo com destino a São Paulo. O motivo da viagem era uma reunião de investigadores do Projeto de Pesquisa Júpiter. Na minha companhia, a minha colega de trabalho Maria Clara, Sub-investigadora desse mesmo Projeto. Em São Paulo, encontraríamos a minha filha Annelise, que já estava cumprindo compromissos desde segunda-feira. Falávamos da seqüência de viagens e do desconforto que representa viajar em classe econômica. Até contei para a minha colega que na segunda-feira havia recebido um up grade na volta de São Paulo (acho que por conta de um atendimento médico que fizera durante o vôo). Até brinquei com ela, dizendo que se estivesse sozinho teria chance de ter ganhado outra mudança de classe nesse dia.
Antes do embarque ouvimos os nossos nomes sendo chamados pelo som do aeroporto, solicitando que comparecêssemos para alguma alteração nos assentos. Fui até ao guichê de entrada e lá estava, toda sorridente, a funcionária que havia nos atendido, por quem já sou bastante conhecido e reconhecido, comunicando que voaríamos novamente em classe executiva. A minha colega, por ser minha acompanhante na mesma viagem, também fora contemplada. Ela apenas pediu desculpas dizendo que, devido a essa nova arrumação, não viajaríamos juntos.
Chega a hora do embarque, avião totalmente lotado, havia um time de futebol local no mesmo vôo, e lá estávamos nós na primeira classe, nas fileiras 1 e 2. De repente, quem chega para sentar ao meu lado? Nada menos que a exuberante Tereza Collor. Antes, havíamos combinado que pediríamos a pessoa que se sentasse ao nosso lado para fazer uma troca de lugares, no sentido de fazermos companhia um ao outro. Imediatamente, olhei para a cadeira de trás, onde a Clara estava sentada, e falei: se falar em trocar de assento eu lhe mato - risos.
Vários amigos que entravam e me cumprimentavam imediatamente olhavam para a bela companheira ao meu lado, e eu percebia nos pensamentos: puxa, que cara de sorte esse Marco!
Antes de iniciarmos o vôo se estabeleceu o meu bom senso, e fui eu que solicitei à companheira de lado da Maria Clara para trocar de lugar. Ela, amiga de Tereza, ficou satisfeita com a troca porque já haviam iniciado uma boa conversa.
Já sentado em meu lugar, e acomodado como um simples mortal, aproveitei um momento em que a Tereza estava de pé, arrumando a sua bagagem de mão, para lhe dar uma explicação: Olha Tereza, quero lhe contar uma história. Estou aqui na classe executiva por conta de um up grade de última hora, e ainda desfrutar do privilégio de viajar em sua companhia seria um exagero. Por isso, preferi trocar a sua companhia pela da Maria Clara. Todos que assistiram à nossa conversa deram boas risadas, e assim seguimos viagem. Eu e Maria Clara bem quietinhos e acomodados no banco de trás, e a (com todo respeito, bela e amável) Tereza, no banco da frente. Ainda pensei em pedir para tirar um foto (só para mostrar para aos meus amigos - risos de novo), mas fiquei com receio de ficar parecendo atrevimentos da senilidade.
Estimada Tereza, fiquei impressionado com o seu carisma pessoal, reforçado pelos olhares curiosos de todos que entravam no avião, numa espécie de demonstração de carinho pela sua notória presença. O fato acontecido propiciou dois desdobramentos interessantes: para a Maria Clara, ficou a fantástica sensação de eu ter preterido a sua companhia para viajar na companhia dela. Para mim (depois do up grade), ficou a certeza de que: da sorte, não se deve abusar duas vezes.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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