ESQUINA CULTURAL
"O mais importante trabalho de minha vida"

Com essa frase, o maior investigador de epidemiologia cardiovascular, Dr. Salim Yusuf (Universidade de MacMaster no Canadá), definiu a sua participação no recém divulgado Estudo INTER- HEART, cujos resultados foram apresentados no Congresso da Sociedade Européia de Cardiologia (agosto último, em Munique). Esse Estudo, que foi realizado em todos os continentes, ofereceu ao mundo uma visão nova a respeito dos chamados fatores de risco cardiovascular.

Numa tentativa de informar ao público em geral as novidades desse Estudo, porque são todas aplicáveis às nossas vidas, vamos fugir um pouco do nosso costumeiro estilo e tentar transformar em prosa informações úteis e necessárias.

O que aprendemos com o INTER - HEART:

a) Um mesmo fator de risco causa ataque cardíaco em qualquer parte do mundo;

b) Parece que chegou o tempo de pararmos de utilizar, como valor de referência, o tão decantado Índice de Massa Corpórea (que é uma razão entre o peso e o quadrado da altura). O marcador de risco mais importante foi o valor da circunferência abdominal, que reflete mais a chamada gordura visceral. Valores acima de 80cm para mulheres e de 85cm para os homens já aumentam o risco de um ataque cardíaco;

c) Embora de aplicabilidade inicial improvável, por questões de custos, surge um novo marcador de risco que é a razão entre a Apolipoproteína B e a Apolipoproteína A. Esse teste, que pode ser realizado em qualquer hora (dispensa o jejum que o colesterol exige), avalia de forma muito simples e conclusiva o risco cardiovascular. Abaixo de 0,5 é normal; entre 0,5 e 0,75 o risco é moderado; entre 0,75 e 1,0 o risco é alto, e acima de 1,0 o risco é muito alto. Em pessoas de risco muito alto a probabilidade de um ataque cardíaco é de 54%;

d) Fumar está associado a um aumento de 34% do risco cardiovascular. Quando fumar está associado a níveis elevados de colesterol, esse fator de risco aumenta em mais 66% a chance de um ataque cardíaco. O mais importante é que nesses indivíduos o uso de Aspirina e Estatina não é capaz de exercer ação protetora. O risco aparece em quem fuma apenas um cigarro; passa para 40% em quem fuma de cinco a dez; aumenta quatro vezes em quem fuma mais de vinte, e aumenta nove vezes em quem fuma mais de 30 cigarros/dia;

e) O estresse, antes considerado com um fator de risco de importância secundária, ganhou destaque nesse Estudo, especialmente quando é "permanente", ou seja, está presente no trabalho e em casa;

f) Os outros fatores já conhecidos por serem potentes, freqüentes e independentes foram: diabetes, hipertensão, vida sedentária e dieta inadequada (com poucas frutas e vegetais);

g) Por outro lado, ficou bastante patente que uma dieta adequada, exercícios físicos regulares e moderada ingestão de bebida alcoólica reduzem o risco de um ataque cardíaco, independente da localização geográfica e da raça do indivíduo.

Esse Estudo, que deverá ser publicado ainda esta semana na conceituada Revista The Lancet, demonstra claramente os benefícios que podemos alcançar sem o uso de comprimidos e cirurgias. Uma política pública bem orientada, e ações políticas do tipo: redução de gordura e sal dos alimentos industrializados, poderia surtir um efeito muito positivo na saúde da população.

Nos Estados Unidos está sendo proposta pela comunidade médica uma política de taxação aos produtos industrializados ricos em gordura e sal, que contribuem para o aparecimento de obesidade e hipertensão arterial. Será que esse exemplo poderia ser seguido pelo Brasil?

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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