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Duro vai ser achar o título de eleitor
Ainda não me atrevi a procurar o meu título de eleitor. Deve
estar bem guardado desde a eleição passada. Parece que se não
encontrar ainda me resta o recurso de votar apenas com a minha
identidade (que também não sei onde botei desde que comecei a
usar apenas a carteira de motorista). Ainda assim, devo pelo
menos lembrar das outras informações que me remetem ao local
exato. E tudo que sei é que sempre voto no Iate Clube. Para quem
está perdido é um bom começo.
Acredito que esse não é um problema apenas meu. Não devo estar
sozinho nesse emaranhado de dúvidas a serem resolvidas até o dia
da eleição. É comum não saber onde se guardou um documento que
se usa de dois em dois anos.
Essa é uma eleição curiosa, digo diferente. As normas eleitorais
vigentes, que acabaram (ou diminuíram) com o abuso de dinheiro
gasto em propaganda (não sei se vai conter a compra de votos no
dia da eleição), tornaram também menos visíveis os candidatos.
Quando o bombardeio era maior já saíamos de casa para votar com
um monte de números na cabeça, e na hora era só escolher um.
Nessa eleição vai ser diferente: quem quiser mesmo votar vai ter
que ligar para a casa de seu candidato para saber o número
certo. A exposição menor vai dificultar ao eleitor cravar na
máquina eletrônica a sua opção.
O problema ainda se torna maior quando não se sabe nem em quem
vai votar até o presente momento. Esse parece ser o meu caso.
Nada contra os candidatos. Até que este ano temos algumas boas
opções para sufragar nas urnas. O que se passa mesmo é uma
sensação de descrédito com a atividade política. Acho que os
fatos recentes acontecidos em nossa terra, têm reflexos
profundos nesse meu, digamos, desinteresse com essas eleições.
Embora possam dizer que essa minha atitude não ajuda em nada ao
fortalecimento democrático, o ideal é que o voto não fosse
obrigatório. Uma vez que o candidato, quando eleito, não se
obriga a respeitar o eleitor, também o eleitor deveria ao menos
não ser obrigado a comparecer às urnas, mesmo que seja para
votar branco ou anular o voto.
Tenho certeza que essa minha apatia política é coisa passageira.
Afinal, não há outra maneira de se construir um país forte sem
esse compromisso de votar bem e até de ser votado. Ainda tenho
três dias para encontrar meu título e reencontrar a minha
vontade cívica para dar mais um voto de crédito à atividade
política.
Até porque votar significa possibilidade de mudança. E, como
disse Eça de Queiroz: “os políticos e as fraldas devem ser
mudados frequentemente, e pela mesma razão”.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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