ESQUINA CULTURAL
Tem gente que chega...

Sempre que encontro os amigos que acompanham o que escrevo tenho recebido congratulações pelo retorno de minha filha Annelise. Em seguida, (dos que me conhecem de perto) vem uma segunda pergunta: não está feliz? Acho que eles conseguem ler o meu coração e descobrem que alegria de pai é efêmera, principalmente de um pai de tantos filhos. 

Uma vez meu irmão me alertou sobre a opção feita, desejando ser pai de tantas cabeças e de tantas realidades, dizendo-me (numa tentativa de acalmar o meu coração) que não valeria a pena a escolha se não tivesse que experimentar várias situações conflitantes e desafiadoras.

Hoje vou falar um pouco sobre a minha filha de número quatro, para quem escolhi o nome de Alana, o que quer dizer - alada, a que tem asas para voar. Muitos podem pensar que tenho escrito pouco sobre ela, mas, num levantamento que fiz recentemente, descobri que mais da metade de tudo que escrevi falando de filhos e família foi dedicado a ela. Muitos dos textos ela nem teve acesso, porque os escrevi numa época em que ela havia deixado a casa e eu nem sabia ao certo onde ou como estava. Há mais ou menos um ano nos reencontramos e nos reaproximamos. Ficou trabalhando comigo na minha Clínica da Pajuçara, onde a encontrava para matar a saudade e atualizar a conversa todas às quintas-feiras. Estava animado com o seu progresso nas atividades do dia-a-dia e pude também voltar a estimular o seu desenvolvimento profissional matriculando-a para aprender computação e espanhol. De vez em quando ia almoçar em casa. Recentemente tivemos alguns finais de semana juntos e chegamos a comemorar em casa o seu último aniversário. Tudo parecia que estava se ajustando. 

Um dia me confidenciou que largaria tudo, porque estava de mudança para Salvador onde seguiria vivendo a sua paixão. Dessa vez, não mais me assustei, embora tenha ficado triste com a possibilidade de uma nova separação. Logo demitiu-se da Clínica para organizar a vida, e depois de algum tempo (numa quinta-feira) procurou-me para dizer que estava perto o dia de partir, não tinha certeza da data, mas poderia ser até na próxima semana...

Chegava de uma viagem de final de semana quando o celular tocou a cobrar. Do outro lado da linha ouvi a sua voz dizendo: "Painho, já cheguei, a viagem foi boa e já estou em Salvador". Soube depois que a viagem foi como de uma verdadeira retirante, em cima de uma boleia de caminhão (junto com as poucas coisas que possui). Acredito não ter sido fácil porque sei que ela fica enjoada quando viaja de carro, sofremos do mesmo mal. Depois desse dia, já me ligou duas vezes. Sempre pergunto: "Filha está tudo bem? Você precisa de alguma coisa?". De volta sempre escuto, em curtas ligações a cobrar, que está tudo bem e que não precisa de nada.

Filha, continuo pensando que tudo podia ser diferente, mas ao mesmo tempo sinto um orgulho danado porque você soube assumir com tanta dignidade a opção de vida que escolheu. O seu "está tudo bem, não preciso de nada" quer dizer: "Eu tenho tudo o que escolhi para ser feliz". 
E o coração de pai fica assim, como: "Todos os dias na mesma estação, tem gente que chega, tem gente que sai....".

Obs.: como não lê jornais, é possível que ela nem tome conhecimento desse meu sentimento.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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