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Tatuando o amor
Numa dessas reportagens de pouca expressividade que o Fantástico da Rede Globo tem exibido aos domingos, mas parecendo uma maneira de preencher o tempo, numa clara demonstração de falta de assuntos, apareceu uma entrevistadora nova buscando situações inusitadas, que ela própria definiu como estranhas provas de amor.
Conseguiram arranjar uma figurante que se submeteu a fazer uma tatuagem como prova de amor ao namorado. Ela escolheu justamente a simbologia de um coração e de um pequeno pássaro. Ao ser perguntada pela repórter sobre o significado da tatuagem escolhida, ela falou que o coração era, justamente, o seu, e o pássaro o atual namorado, que vivia voando (possivelmente, pousando em outros corações), mas que (para ela), definitivamente, havia pousado agora no seu, de onde não mais voaria. Ao ser inquirido pela repórter, o namorado, um tanto inseguro, respondeu que concordava com as colocações da sua "amada", embora para mim não tenha ficado nenhuma certeza (e nem podia, porque em matéria de amor nunca se tem absoluta certeza). Deram um beijo apaixonado e se despediram do quadro, não sei se hoje ainda estão juntos ou se o pássaro está pousando apenas naquele tatuado coração.
Até aí nada de interessante ou diferente. Tatuar o nome do amado ou da amada, ou mesmo tatuar símbolos que possam denotar o momentâneo amor que se está vivendo, é coisa rotineira, principalmente, na vida de famosos que estão acostumados a trocar de "amor" a cada final de semana.
O momento interessante foi propiciado pelo tatuador. Ele descreveu alguns pedidos estranhos feitos por clientes "apaixonados", e quando perguntado pela repórter se teria coragem de fazer uma tatuagem como prova de amor, respondeu sem pestanejar: "jamais, porque tatuagem é para sempre".
Penso (logo insisto) que "o amor por ser encantado" não exige e nem admite provas definitivas, por isso se faz momentâneo. Amor é conquista de dia-a-dia, muito mais estação de partida do que de chegada. Senti muita sabedoria e firmeza na resposta do tatuador. Ele respondeu como se já houvesse refletido sobre essa questão, e aquela resposta fora construída a partir de experiências pessoais e, certamente, de muitas histórias que escutara de clientes que, ao se defrontarem com a momentaneidade do amor, se depararam também com a "eternidade" das tatuagens.
Diante da televisão, naquele momento, me perguntei se teria coragem de fazer uma tatuagem como gesto de amor, e, nesse caso, qual o símbolo que escolheria para representar esse gesto. Achei melhor seguir o conselho de quem tem mais experiência nesse assunto, o
tatuador.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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