ESQUINA CULTURAL

Já é tarde, ainda é cedo


Semana passada, recebi de um grande amigo que mora em São Paulo um e-mail no mínimo curioso. Ele me comunicava que a sua filha mais velha estaria completando 15 anos e me pedia uma opinião sobre a conveniência de aproveitar essa data para ter com ela uma conversa especial sobre determinadas coisas que o preocupava. Recebi o pedido como um desafio porque ele justificava o fato de estar desejando minha opinião pela minha experiência de ser pai de tantos filhos.

Respondi carinhosamente o seu e-mail dizendo o seguinte: meu caro amigo, imagino que essa conversa séria com sua filha adolescente, entre outras coisas, gravitará em torno do comportamento sexual dela (preocupação muito pertinente aos pais, especialmente ao pai). Acredito ser este o assunto porque você e sua esposa (pelo que pude presenciar nesse período de convivência), não necessitam fazer ajustes educacionais ou mesmo éticos. Então lhe respondo assim: se nunca tratou desse tema em outras conversas, penso que agora já é tarde.

Disse isto para ele lembrando-me de dois fatos acontecidos com meu caçula de seis anos, o Lucca. O primeiro foi logo depois do casamento de Annelise. Ele um dia perguntou para ela: ”Nana, eu soube (deve ter sido dito a ele pela irmã gêmea – risos) que quando se casa o homem come a mulher. Por que você ainda está do mesmo tamanho?”.

O segundo fato foi mais recente e por mim presenciado. Durante o banho, ele perguntou para a mãe: “o que se faz na lua de mel?”. Inês explicou que um casal em lua de mel passeia muito, visita outros lugares interessantes, come nos restaurantes, enfim, se diverte muito. Ele, que já sabia da resposta e apenas estava testando o “conhecimento” (ou desconhecimento) da mãe, foi mais além e insinuou: “mas sobra um tempinho para dar beijo na boca?”.

Então, o Lucca no esplendor dos seus seis aninhos já sabe de quase tudo sobre o que você deseja conversar sério com a sua filha.

Ele respondeu-me agradecendo a minha resposta e disse-me então que aproveitaria para comemorar o aniversário da filha entregando para ela a chave da casa.

Meu querido amigo, para entregar a chave da casa talvez ainda seja cedo. Eu ainda não a entreguei aos meus adolescentes, por sinal faz um mês que mandei gradear a janela por onde um deles saltava de volta quando não desejava ser visto retornando da balada e mandei consertar o alarme que estava desativado naquela área.

Assim, em se tratando de adolescente, o bom mesmo é equilibrar esse binômio já é tarde/ainda é cedo. O que significa não chegar antes, nem atrasado um minuto.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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