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Um Natal slow down
Muito embora deva o Natal representar para todos um tempo de paz
e harmonia, vivemos, nesse tempo presente, um paradoxo
representado pela agitação e desarmonia. Notamos nas pessoas uma
aceleração no ritmo de vida, o trânsito se torna mais confuso,
os centros de compras congestionados e o mais grave, a
tolerância e a solidariedade dão lugar a um espírito mais
individualista e competitivo. Todos parecem estar com muita
pressa porque o fim do ano está chegando.
Não vou nem tentar recuperar o sentido perdido de uma festa que,
simbolicamente, representa o aniversário de um Deus que se fez
menino, mas que já virou, num país de tantos outros ídolos,
apenas mais uma zeca-feira. Vou tentar pelo menos recuperar a
qualidade da comemoração.
Por isso escolhi esse título que lembra um movimento que se
difunde na Europa e que valoriza o “encontro” de uma necessidade
amadurecida (ainda que seja fruto de uma idéia brilhante e
simples) com uma tecnologia apropriada. O slow Europe questiona
a pressa e a loucura gerada pela globalização, trocando o ter em
quantidade pelo ter em qualidade. Estimula o slow food em
contraposição ao fast food, preconizando comer e beber com
calma, dar tempo para saborear os alimentos, degustar de sua
preparação em família, com os amigos, sem pressa e com
qualidade. Isso tem gerado o slow atitude, que não significa
fazer menos, mas fazer com qualidade.
Quando ainda escrevia esta prosa, recebi um aflito telefonema de
minha esposa comunicando que havia batido o carro. Parei a minha
atividade e fui para o local do acidente para prestar
assistência. Lá chegando, pela posição dos veículos e sabendo
que ela também anda “fast” nesta época, nem desejei discutir com
o proprietário do outro veículo. Aproximei-me dele e disse-lhe:
meu amigo nada a discutir com você, gostaria apenas de levá-lo
até a oficina de um conhecido para acertar o preço do seu
serviço. Ele, então, me respondeu dessa forma: “será que não
podemos deixar para resolver isso outro dia, estou muito
apressado”. Assim está o mundo, tudo muito “fast”, ninguém tem
mais tempo para nada e, nesta época de final de ano, aí é que o
ter tempo (nem que seja para resolver coisas importantes) fica
cada vez mais limitado às circunstâncias.
John Lennon dizia que “a vida é aquilo que acontece enquanto
planejamos o futuro”. Esta sabedoria pode ser perfeitamente
aplicada ao tempo presente, em que para muitos o futuro é a
festa do Natal e o final de ano, esquecendo que a vida pode ser
esse tempo de espera para se viver um Natal de verdade.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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