ESQUINA CULTURAL

Convivendo com sintomas (3)

O ambiente dos consultórios deveria ser um dos locais em que o paciente, por estar perto de seu médico, sentiria plena segurança. Em algumas situações essa assertiva pode até ser verdadeira, mas em muitos casos não funciona bem a assim. Muitos pacientes, ao aguardarem o momento da consulta (ou mesmo até ao sair de casa com essa finalidade), desenvolvem um estado de ansiedade tão extraordinário, que já é sentido pelo médico no simples gesto de apertar as mãos (bastante frias). Essa frieza das mãos, que acontece por um estado de alerta dos vasos sanguíneos (que se contraem), pode ser responsável por alguns achados no exame médico como taquicardia e alterações na pressão arterial.
 
Uma das manifestações mais interessantes, fruto desse estresse determinado pela consulta médica, é a denominada hipertensão do avental branco. O paciente tem a pressão sempre alta quando na presença do médico (mesmo se a pressão for medida na sala de espera por outra pessoa), e sempre normal quando medida em casa. Esse conceito foi descrito desde o ano de 1940, mas apenas depois da introdução na prática clínica de dois exames que avaliam a pressão longe da influência do médico (MAPA e MRPA) é que se popularizou.
 
O interessante é que o paciente que apresenta esse diagnóstico todas às vezes que estiver diante do médico (mesmo que seu médico seja velho conhecido) permanecerá com esse comportamento definido como uma reação de alarme.

Diagnosticar bem essa situação tem uma implicação decisiva para a saúde do paciente, porque, até o momento atual, o entendimento é de que esse paciente (que comprovadamente tenha hipertensão do avental branco) não merece tratamento com medicamentos, pois a sua evolução quando comparada a de indivíduos com pressão normal é bastante semelhante. Deve, no entanto, ser aconselhado a melhorar seu estilo de vida e ser seguido sempre para acompanhamento da pressão, uma vez que existe a possibilidade de se tornar hipertenso no futuro.

É também bom lembrar que essa não é uma situação rara e está presente em cerca de 20% dos “hipertensos” diagnosticados, e em uso de medicação.

Mais uma vez fica o alerta de que é melhor gastar algum tempo com o diagnóstico correto da hipertensão do que tomar uma decisão precipitada de tratar todos que tenham uma pressão alterada no consultório.

É prudente afirmar que: persistindo os sintomas deve-se procurar um médico, mesmo que a sua presença para alguns seja motivo de alarme – risos.

Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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