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Convivendo com sintomas (08)
Os sintomas são na verdade os grandes aliados que ajudam aos
médicos a construir os necessários diagnósticos. Por isso, em
tempo de tantas mortes súbitas em atletas, um dos grandes
desafios dos médicos é a convivência com um número cada vez
maior de pacientes que procuram os consultórios, sem nenhum tipo
de sintoma, e desejam saber se podem realizar determinadas
atividades físicas com segurança.
Ao contrário do que se imagina, a morte súbita em pessoas jovens
quase nunca acontece por enfarte (ou infarto) do miocárdio. A
doença que determina o aparecimento do enfarte é mais comum na
quarta década de vida. Falo mais comum por que em determinados
pacientes que convivem com fatores de risco mais importantes
essa data pode ser antecipada. Falo do comum, do
estatisticamente mais freqüente, e nesses casos o determinante
de morte súbita está mais associado a arritmias (morte
elétrica), e a causa de fundo (quando detectada) está mais
ligada as doenças do músculo cardíaco (as miocardiopatias).
Nesses casos, além de uma história clínica bem colhida, o
direcionamento para exames complementares deve privilegiar a
ecocardiografia, ao contrário do que se imagina de ser sempre
necessário a realização de um teste de esforço. Estudos
pós-morte em pessoas jovens, que faleceram subitamente,
revelaram esse tipo de associação – morte súbita e doenças do
músculo cardíaco. Sabemos que as arritmias potencialmente fatais
acompanham sempre as doenças dos músculos do coração, e que a
prevenção reside no diagnóstico adequado do tipo de arritmia e
de sua potencialidade de se tornar uma arritmia letal.
O que acontece nesse tipo de consulta é que o paciente deseja,
de nós médicos, uma segurança plena de que nada vai acontecer
com ele, e nós sabemos que em medicina essa exatidão não faz
parte desse tipo de ciência inexata.
O enfarte do miocárdio é um episódio inesperado de trombose num
vaso coronariano e pode ocorrer até num vaso normal, ou mesmo,
com uma placa de gordura inexpressiva (como é o habitual),
portanto imprevisível e inevitável.
Devemos aproveitar esses momentos para investir na detecção de
prováveis fatores de risco que, se identificados precocemente,
podem ser alvo de uma abordagem competente.
Assim, para os pacientes que não sentem nada, na persistência
dessa monotonia sintomática aconselha-se procurar um médico. Na
persistência de um médico sem nenhuma atitude, aconselha-se
procurar um sintoma – risos.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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