ESQUINA CULTURAL

Convivendo com sintomas (7)

Nesse universo de pacientes que surgem nos consultórios com queixas, as mais variadas possíveis, cresce muito o seguinte tipo de reclamação: a consulta é realizada pelo casal, mas quem fala é a mulher. Geralmente o homem tem um perfil característico do que modernamente se define como sendo portador de síndrome metabólica, denunciado pelo aumento da circunferência abdominal. O que chama a nossa atenção é que o paciente permanece calado sendo apresentado pela sua companheira que vai logo dizendo: “doutor, esse homem está roncando muito. Então quando bebe alguma coisa no final de semana fica ruidosamente insuportável”.
 
Geralmente não revela que a incomodada é ela com o barulho que não a deixa mais dormir, e, demonstrando preocupação com o companheiro, segue dizendo: “doutor, tem horas que eu penso que ele parou de respirar e vai morrer. Eu então fico preocupada e o sacolejo para que ele volte a respirar e siga roncando. Isso acontece várias vezes, a noite inteira, e pela manhã ele acorda todo feliz como se nada tivesse acontecido e eu estou arrasada”.

Esse é o relato muito típico da denominada apnéia do sono, um quadro preocupante porque, além de ser responsável por um grande número de separações, pode também ser responsável pela precoce viuvez.
 
É bom lembrar que a simples presença do (incômodo) barulho do ronco não é indicativo da apnéia do sono. Qualquer pessoa num dia de maior agitação, ou mesmo ao mudar de hábitos e comer alguma coisa de difícil digestão durante a noite, pode dar suas “roncadinhas”. Não estamos aqui tratando desses casos suaves e comuns. As características do ronco nessa doença são as pausas no regular ciclo respiratório, que ocorrem durante o sono (independente de ser diurno ou noturno), e que coincidem com alterações no trabalho do coração e provocam perigosos aumentos da pressão arterial e variações na freqüência cardíaca.

É uma situação que exige sempre uma orientação segura e encaminhamento para especialistas que tratam de forma adequada esse tipo de problema. Perder peso é sempre a primeira indicação e requer também a atuação de profissionais competentes (porque não é fácil). Algumas ajudas de suporte respiratório durante o sono podem estar indicadas e devem ser também prescritas por especialistas do ramo.

Curiosamente nunca recebi um casal em que a reclamação desse tipo de incômodo partisse do homem, mas é bom lembrar que a apnéia do sono também pode acometer as mulheres, e conclamo aos homens para começarem a ter coragem de “denunciar” as companheiras.
 
Afinal, amar também é: criar coragem e começar a reclamar dos sintomas delas – risos.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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