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Convivendo
com sintomas (2)
Costumo receber
pacientes com a seguinte queixa: “doutor, estou vindo ao senhor
porque a minha pressão está oscilando muito”. Ele, que estava
habituado a receber de seu médico (em quem confia cegamente) a
informação de que a sua pressão era um determinado valor fixo –
por exemplo 12 x 8 –, de repente, ao checar a pressão num
equipamento automático, encontrado num supermercado ou mesmo
numa farmácia, foi surpreendido com a informação de que a sua
pressão estava em 126 x 84. A primeira reação é de desconfiança
(e justificada), porque seu médico (em quem tanto confia,
repito) havia lhe dito que a sua pressão (sempre de criança) era
esse número fixo 12 x 8. Entre a desconfiança e a curiosidade,
resolve re-checar a informação (aí, já assustado) e o que
acontece é que dessa vez o equipamento registra uma pressão de
136 x 90.
O que de fato pode está acontecendo com esse paciente que tinha
uma pressão tão “comportada”? Não deve está acontecendo,
absolutamente, nada.
A explicação é a seguinte: o coração bate em média 80 mil vezes
por dia. É possível que todas as vezes ele bata com uma pressão
diferente. Essa descoberta de uma provável oscilação da pressão
arterial é, na verdade, a simples constatação de um fenômeno
natural, que é característico da pressão arterial, denominado
cientificamente de variabilidade. A pressão arterial varia
sempre, e muito, até quando estamos dormindo. Costumo dizer aos
meus pacientes que só existe uma situação em que a pressão não
varia, é quando estamos “definitivamente” mortos – risos.
Essa descoberta, por parte do paciente, da variabilidade
(oscilação) da pressão arterial é motivo de muitas visitas ao
médico, e pode ser causa de diagnósticos equivocados de
hipertensão, e mesmo, de uso desnecessário de medicação.
Assim, no diagnóstico da hipertensão, é melhor perder algum
tempo para definir bem se de fato estamos diante de um quadro
mantido de pressão alta, ou apenas diante da exacerbação da
variabilidade desencadeada pelo emocional do paciente. Digo
sempre, que é melhor perder algum tempo, porque não deve existir
pressa em se estabelecer um diagnóstico definitivo, sempre
cruel, que significa (quase sempre) a convivência com uma doença
para o resto da vida.
Mesmo assim, persistindo a dúvida (ou os sintomas) procure um
médico – risos.
Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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