ESQUINA CULTURAL
Severino da Silva

Quem viaja de carro nas estradas do interior do estado vai encontrando e, muitas vezes, dando passagem, às famosas ambulâncias, quase sempre apressadas. Dentro delas geralmente existe uma vida em perigo e, outras vezes, até duas, quando a transportada é uma gestante. De certa forma, essa proliferação de ambulâncias se deslocando em direção aos grandes centros demonstra a fragilidade da assistência médica integral. Qualquer caso de maior gravidade necessita ser encaminhado para as Unidades de Emergências e para os Hospitais Públicos, congestionando não apenas o trânsito das ambulâncias, mas os acessos aos sítios de maior complexidade.

O pior mesmo é quando o transportado necessita de um internamento clínico. O sofrimento não será apenas do paciente, mas principalmente do motorista que necessita ter muita perspicácia e habilidade para saber onde o paciente pode ser acolhido.

Lembro-me que, no tempo em que era diretor do Hospital Escola Dr. José Carneiro, havia uma determinação para que as ambulâncias trazendo paciente do interior ficassem retidas no estacionamento até a completa liberação por parte do Serviço Social. Quando chegava para o trabalho encontrava sempre dois ou três motoristas revoltados e exigindo que fossem liberados. Alegavam que tinham outros compromissos, que estavam cansados e até mesmo com fome. Para não contrariar a determinação estabelecida mandava servir um pequeno lanche na tentativa de acalmá-los.

Tempos atrás, conversava com o Diretor Presidente da UNCISAL, quando fomos interrompidos por um funcionário que desejava lhe comunicar ter resolvido um problema. Tomei conhecimento do fato: um desses motoristas de ambulância, conhecido como Severino, que levam a vida transportando pacientes em busca de uma vaga para internamento, tivera um derrame e, dessa feita, o transportado, por ironia do destino, fora ele.

Fiquei imaginando o que pode ter se passado em sua cabeça durante o percurso, já que é velho conhecedor das dificuldades para internar um paciente com esse tipo de patologia.

Foi, com certeza, uma enorme peregrinação e muitas recusas até chegar ao conhecimento do Prof. Telmo, que "ordenou" uma providência. Disse-me ele não ser justo devolver nenhum paciente e muito menos o Severino, que levou a vida arriscando a própria vida, nas esburacadas estradas de nosso Estado, em busca de atendimento para os seus anônimos passageiros.

Meu caro Severino, não tive notícias de sua evolução (nem sei mesmo se você continua vivo), mas saiba que o seu acolhimento se deveu a sensibilidade de alguém que conhecia e valorizava o seu trabalho. Quem levou a vida "garimpando" vagas para desconhecidos, teve a sorte de, no momento certo, ser reconhecido por uma "autoridade" sensível.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

Voltar

Desenvolvido pela Gerência de Tecnologia da SBC - Todos os Direitos Reservados
© Copyright 09/06/2026 | Sociedade Brasileira de Cardiologia |
tecnologia@cardiol.br
 Busca