|
Sesta: hábito saudável?
O hábito de dormir ou repousar depois do almoço — a conhecida e
agradável sesta — ainda é exercitada em quase todas as partes do
mundo. Conhecida também como “siesta” para os espanhóis, e “nap”
para os ingleses, ainda representa uma oportunidade privilegiada
para algumas pessoas que a pratica. Fisiologicamente a sesta
pode ser entendida como uma exigência do próprio organismo,
porque ocorre justo no momento de uma baixa de temperatura
corpórea e também porque descobertas recentes revelaram que as
células cerebrais (que nos mantém despertos) se desligam depois
que comemos. A glicose bloqueia, ou inibe, os neurônios que
produzem as orexinas, que regulam o nosso estado de consciência.
Isso pode explicar o cansaço que ocorre pós-refeições e porque é
difícil dormir quando se está com fome.
Em trabalho que publicamos recentemente, analisando os valores
da pressão arterial registrados durante a sesta, mostramos que
21% dos indivíduos monitorizados (MAPA) relataram no diário de
atividades que fizeram sesta. Esse dado está de acordo com o
encontrado em muitos países, mas abaixo do encontrado na
Espanha, que em algumas regiões beira os 73%.
Curiosamente, a sesta está sendo proibida por Decreto para
funcionários públicos espanhóis desde o ano de 2005. O costume
era o de se ter um intervalo de duas horas e meia (entre 14h00 e
16h30), agora reduzido para 30 ou no máximo 60 minutos. O motivo
não são as controversas se a sesta é benéfica ou maléfica. O
problema é que o tempo que se gastava para repousar, após o
almoço naquele país, comprometia 8% do PIB e prolongava o tempo
dos trabalhadores longe de seus lares afetando as relações
familiares.
Seria, no entanto, essa prática saudável ou não? O conhecimento
atual nos orienta que para indivíduos sãos, especialmente homens
trabalhadores, descansar depois do almoço é bom para o coração.
No entanto, a controversa aparece para indivíduos sabidamente
portadores de doenças das artérias coronárias, ou que já tenham
sofrido de enfarte, se a sesta seria benéfica. Descansar é
sempre bom, o problema reside justamente no despertar, porque à
semelhança do despertar matinal, quando ocorrem mais casos de
enfarte e acidente vascular cerebral, o despertar da sesta pode
ter conseqüências desastrosas para essa população.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
Voltar
|