ESQUINA CULTURAL
Os segredos da Natureza

Eita, que calor! Calor de rachar! Caramba, o calor deste verão está pior do que nos outros anos! Essa conversa está em todas as bocas e em todos os lugares. Fui ao banco resolver um assunto pendente e um colega aproveitou a oportunidade para dizer que há um aquecimento global no planeta e que isso pode ter efeito dramático sobre a vida humana. Respondi: ah! meu amigo, no passado, janeiros e fevereiros mais quentes eram sinal de fortes trovoadas. Dizia-se: as trovoadas de janeiro tardam, mas não faltam.

Neste verão, lembrei-me de um episódio ocorrido em minha adolescência. Morávamos (eu e meu irmão Rui Medeiros) numa fazenda à margem do Rio São Francisco. Além de futebol, nossos esportes favoritos eram a pesca – como eram fartos os peixes e pitus àquela época! – e a natação à distância, sempre tentando superar limites anteriormente conquistados. Éramos adolescentes, vivíamos uma crise paranóica de auto-suficiência, querendo ser donos do próprio nariz, sem medo de enfrentar riscos e obstáculos. A cidade mais próxima ficava a uma légua de distância (6 km) de onde nos encontrávamos e o percurso era feito em canoas. Julgávamos conhecer os segredos do rio e tínhamos confiança de sermos exímios canoeiros. Certa tarde, comuniquei à minha mãe que íamos à cidade fazer compras, pilotando uma canoa à vela. Um não foi a resposta; um Não redondo e definitivo. Explicou, que em algumas horas cairia uma trovoada; o céu já se tomava de uma coloração azul-chumbo e o rio ficaria perigoso durante a chuvarada.

Desobedecemos, rumamos à cidade. Na volta – e já estávamos no meio do rio – desabou uma chuva torrencial, seguida de ventos fortes, que mais pareciam um furacão; os raios e trovões se sucediam. A vela foi arrancada violentamente, inteiramente destroçada. Desesperados, remamos com todas as nossas forças para alcançar a margem do rio. Entretanto, isso já parecia impossível. De repente, julguei ouvir a voz de minha mãe que me orientava: “filho, tenha calma, deixe a canoa ser arrastada pela correnteza. É o melhor que você pode fazer”. Parei o que estava fazendo e segui o conselho recebido. O barco foi levado pela corrente impetuosa e depois jogado em terra firme, em local bem distante.

O pensamento positivo e a energia da preocupação de minha mãe haviam transmitido uma mensagem à minha mente. Uma mensagem telepática. A telepatia consiste na capacidade de uma pessoa captar o pensamento de outra, quase sempre, em situações dramáticas.

No dia seguinte (ela ainda estava uma “arara”) contou-nos que, no momento da trovoada, ajoelhou-se e pediu a Deus que orientasse seus filhos. Como penitência, acompanharia a “via-sacra”, de joelhos, nas semanas santas dos anos seguintes.

Os “desobedientes” foram salvos, milagrosamente, de um possível naufrágio. Coincidência ou não, uma semana depois nos mudamos para a cidade.   

José Medeiros*
(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.

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