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Saudades absurdas
Pai é assim mesmo, pode estar cercado de filhos por todos os
lados (como é o meu caso), mas o coração sempre estará ligado
aos ausentes. Este ano não teremos presente na nossa passagem de
ano a Inesinha. Um dia depois de completar 18 anos ela embarcou
para a aventura de experimentar o sabor de uma nova cultura e
trocou provisoriamente de família. Sempre que falamos ao
telefone, ou mesmo por Internet, não comento sobre o tempo que
está faltando para o seu retorno, procuro dizer que já se foram
tantos meses e que para abraçá-la novamente e dizer (como faço
costumeiramente) que a amo muito faltam apenas alguns poucos
meses.
No nosso último contato, percebi pela tonalidade de sua voz toda
a sua tristeza. Falou-me que esse era o momento mais difícil
porque, se a época natalina e de final de ano por si só já é
capaz de aflorar sentimentos de saudade, para ela que valoriza
muito esse tipo de relação terá sido, sem dúvidas, o teste
definitivo na sua experiência vivencial.
Nesse mesmo dia havia saído com a sua família hospedeira para
comprar uma árvore de Natal e lembrou bastante de todos.
Pediu-me que fotografássemos a nossa casa em todos os seus
detalhes, certamente para (na sua solidão) puder mergulhar em
todos os espaços por ela conhecidos e familiares. Assim fizemos,
e enviamos para ela junto aos presentes de final de ano (com
leite condensado e nescal para fazer brigadeiros).
Ainda no nosso diálogo, nessa última ligação, ela definiu de
forma definitiva a saudade enorme que sentia de todos e de tudo,
quando me disse com a voz intercortada: “painho, é uma saudade
absurda”.
É dessa dimensão de saudade que vou terminar o ano falando e
dividindo com os meus leitores. Saudade por si só já representa
um sentimento profundo e só definido pela própria experiência de
senti-lo, imaginem quando essa saudade se torna absurda. O
absurdo é algo que aproxima o sentimento de ausência e da
necessidade de estar presente ao inimaginável.
Filha, o que dizer para você que possa ajudá-la a enfrentar esse
duro sentimento nesse período mais crítico de sua viagem.
Entendo quando você quis falar da intensidade de seu sentimento
definindo-o como absurdo, mas para confortá-la vou dizer-lhe que
ainda existem formas mais cruéis de saudade. É aquela que
sentimos diante da impossibilidade do resgate. O seu absurdo tem
data definida. Acaba no mês de julho do próximo ano, e o Natal
de 2007 será, com certeza, diferente. Você estará de volta ao
nosso convívio mais amadurecida e pronta para, no futuro, até
enfrentar outros tipos de saudades ainda mais absurdas.
Receba o carinho de seu pai, de sua mãe, da Bubu, e de seus
irmãos e sobrinhos. Feliz 2007!
Obs.: Quando você chegar o Dado vai latir para você.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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