ESQUINA CULTURAL

O mundo perde uma santa

Vivemos uma época não muito fértil para se identificar, ainda em vida, em algumas pessoas as características de santidade. O tempo presente está muito mais adequado para enxergarmos a falta de virtudes. O mundo carece de personalidades que dediquem a vida para que o outro a tenha em plenitude. Assistimos muito mais a busca pelo conforto e o prazer próprio. Essa saída de dentro de nosso próprio egoísmo para alcançar o desenvolvimento do outro está cada dia mais rara. Santidade verdadeira não se alcança depois que se morre. Santidade verdadeira é uma construção terrena de compromissos comunitários e honestidade no estilo de viver. Santidade verdadeira apenas pode ser vivida por alguém que dedique o seu viver à felicidade dos outros (daqueles que muitas vezes nem conhece). É um estado de verdade interior que explode em atitudes, compromisso e comprometimentos. Por isso, são poucos que o alcança.

Tem pessoas que consideramos santas pela bondade. Outras consideramos santas por algum ato de bravura. Algumas até pela forma como morreram. Poucas serão santas pela forma como viveram. Uma delas certamente é santa por todas essas qualidades. Falo de Chiara Lubich, a líder e criadora do Movimento dos Focolares, falecida no dia 14 de março, aos 88 anos, em Rocca di Papa na Itália.

Tomei conhecimento de sua existência há muitos anos ao ler os seus escritos intitulados “Palavras de vida”. Passei a conhecer um pouco de sua história depois que minha filha Annelise se apaixonou pelo Movimento que ela “pastoreava”. No entanto, comecei a acreditar na sua santidade depois que experimentei (em algumas visitas) um pouco de sua obra evangelizadora.

Durante a época em que minha filha viveu numa Mariápolis (Ginetta) fui recebido pelas pessoas dessa comunidade em diversas oportunidades. Lá, conheci a proposta humanizadora do Focolare e pude perceber o seu caráter transformador. Conheci um lindo Projeto denominado de Economia de Comunhão. Vi que ali tudo funcionava como numa orquestra, e a maestrina comandava tudo à distancia como verdadeira líder, através de mensagens de desapego e amor a um Jesus que para ela sempre estava abandonado (enxergar Jesus na figura dos que sofrem).
 
O grande desafio de Chiara Lubich foi lutar por um mundo unido, como pediu Jesus, segundo o Evangelho de São João (17,21), quando disse “Que todos sejam Um”. O mundo continua e continuará desunido e repartido. Isso não é sinal de fracasso de sua mensagem, porque ela não foi de ficar profetizando. Ela foi de colocar a mão na massa, e mesmo não enxergando o seu desafio como missão cumprida, em várias partes do mundo deixou exemplos concretos de um mundo novo.

Que pena que pessoas assim, como Chiara Lubich, um dia se tornem santas. Costumamos dizer quando morre um santo que ganhou o céu. Com Chiara é diferente o céu de Chiara foi a terra.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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