ESQUINA CULTURAL
O Riso é Necessário

José Medeiros*

Muitas expressões que eram comuns em minha juventude não são mais usadas atualmente. Uma delas, era muito repetida: “muito riso é sinal de pouco siso”. A palavra “siso” tinha o sentido de ausência de equilíbrio mental. Busco confirmar essa palavra no dicionário do Mestre Aurélio e encontro o significado: “bom senso, tino, prudência, juízo”. Diante dos estresses da vida moderna, talvez seja necessário mudar essa expressão inicial para outra, bem mais de acordo com nossa época: muito riso é sinal de muito siso, de muito juízo. Felizes os que conseguem rir, diariamente, espantando os problemas do cotidiano. Li, recentemente, que há uma localidade onde a prefeitura construiu uma praça, um local apropriado para manifestações de alegria, risadas e gargalhadas. Uma praça do riso.
Outro dia, recebi, de um amigo sulista, já passado nos anos, um texto que reputo dos mais curiosos e que me fez rir. Tento sintetizar seu conteúdo. Afirma esse meu amigo: “Nasci antes da televisão, antes da penicilina, da comida congelada, da fralda descartável, do plástico, das lentes de contato e da pílula anticoncepcional. E, nesse tempo, havia muito riso, muita alegria na vida familiar e no meio social. Éramos tão felizes que nem sabíamos o quanto. E nem se falava em radar, em cartões de crédito, em máquinas de lavar, condicionadores de ar e vídeo-games. Muito menos, em transplantes de coração, celulares, computadores e terapia de grupo. Em cinqüenta anos a vida virou de cabeça para baixo ou de cabeça para cima, coforme acharem melhor”.
Penso no choque cultural que, fatalmente aconteceria, se um jovem de hoje (escravo da televisão, do celular e do computador), fosse transferido “na máquina do tempo” para o longínquo ano de 1950. Imagine a cena...
Ligo para esse amigo de quem falei, nascido muito antes das fitas cassetes e dos “danoninhos” e relembro palavras utilizadas no passado, que, hoje, são pouco conhecidas. Citei a palavra aloprado (amalucado, inquieto); treloso (travesso, intrometido); covo (armadilha de pesca), entre várias outras. “Vosmecê” (tratamento respeitoso) era comum no linguajar de caboclos e pescadores. Na varanda da fazenda em que cresci contava-se a história de um vizinho, rico e viajado, que voltara recentemente dos Estados Unidos. Resolveu gozar o capataz de suas terras: Oi, seu Josué, “you are a dog” (você é um cachorro). O Josué, que nada entendera, replicou: “obrigado, patrão, mas tudo isso não é para mim, não, tudo isso é mesmo para vosmecê, viajado nas Ouropas”. O fazendeiro embatucou.
O humor é sempre necessário. Repito sempre, que um dos piores dias da vida é aquele em que a gente não riu, nem sorriu. Quando isso acontece, perde-se um remédio natural, sem os efeitos colaterais de alguns produtos farmacêuticos.

(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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