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Sobre
a retirada de medicamentos
Semana passada fui surpreendido com o anúncio da retirada de
mais um medicamento já colocado à venda. Neste caso específico,
a medicação atingida pela proibição foi o Rimonabanto (Acomplia).
A medida foi tomada depois que a Agência Reguladora da Europa, a
European Medicines Agency (EMEA), recomendou a retirada do
medicamento nos países da União Européia.
A Agência concluiu que os benefícios do Acomplia não mais
superavam seus riscos. Estudos demonstraram que pacientes que
utilizaram o medicamento tiveram aproximadamente o dobro de
risco de desenvolver problemas psiquiátricos, como ansiedade e
depressão, comparado àqueles que não utilizaram o produto.
O Acomplia era comercializado em 18 países da Europa desde junho
de 2006. No Brasil, o medicamento possuía registro desde abril
de 2007 como auxiliar à dieta e aos exercícios para o tratamento
de pacientes obesos ou com sobrepeso com fatores de risco
associados. Porém, o medicamento só começou a ser comercializado
no país em 2008.
O nosso Centro de Pesquisas tem trabalhado há 12 anos em
Protocolos que preparam o lançamento de produtos novos no
mercado. Para que um medicamento seja disponível comercialmente
leva de 12 a 15 anos. De cem mil moléculas pesquisadas, apenas
uma atravessa o funil e chega ao mercado. Um produto novo
atravessa fases pré-clínicas (I e II) e mais duas fases clínicas
(III e IV). Geralmente esses Estudos são multicêntricos e
envolvem populações de voluntários em todo o mundo. Tudo isso é
acompanhado pelos Órgãos Regulatórios (Comitê de Ética, Comissão
Nacional de Ética em Pesquisas – CONEP e ANVISA), e monitorado
pelos Patrocinadores.
O custo médio de um produto novo fica em torno de um bilhão de
dólares. A retirada de uma molécula já aprovada para uso clínico
pode provocar a falência de uma indústria e/ou o desinteresse de
várias em continuar pesquisando.
Um fato concreto é que a proibição da venda de produtos
farmacêuticos (já disponíveis) tem crescido muito neste tempo
presente. O que me leva a dois tipos pensamentos: que a
qualidade dos dados provenientes das pesquisas realizadas em
todo o mundo está sendo posta em desconfiança; ou que está
existindo um rigor exagerado nas atitudes das Agências
Regulatórias.
Quando ouço esse tipo de notícia, sempre lembro do que aconteceu
com a Metformina, quando de seu lançamento. As informações que
surgiram devido a prováveis efeitos colaterais quase a retiraram
do mercado, e, por muito pouco, não “mataram” na origem a
medicação mais importante para o tratamento do diabetes.
O mais importante medicamento já descoberto (a aspirina) é o
maior responsável por gastrite e mortes por sangramentos. Caso
fosse descoberto neste tempo presente, certamente, seria
retirado de circulação.
É claro que desejo, como médico, ter certeza de que o meu
tratamento estará beneficiando meu paciente, mas tenho receio de
que esta “caça as bruxas” (deflagrada contra novos medicamentos)
possa privá-lo de efetivos avanços terapêuticos.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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