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Respondendo ao Xande
Tenho um sobrinho, por afinidade, que é um cara muito especial
(aquele filho que todo pai gostaria de ter e aquele jovem que
todas as mães desejariam como genro). Um “menino” muito especial
e um vencedor. Nascido e bem criado em Porto Alegre (por uma
amiga irmã, a Graça Nogueira), agora já totalmente alagoano.
Como nem tudo é perfeito, ele tem um terrível defeito de
acompanhar os meus escritos e de vez em quando me provoca com
questionamentos como esse que acabo de receber: “Oi tio, tudo
bem com você? Veja só essa, se o Arnaldo Jabor escreveu sobre
isso, você também pode. Mas diga logo, ele tem razão ou não?
Quero saber se mantenho a minha natação – risos. Beijo, Xande”.
Em anexo, um comentário feito pelo extraordinário Arnaldo Jabor
que relata em tom de anedota, a ineficácia da atividade física
para a qualidade de vida e longevidade. Toma como exemplo o
humorista Chico Anísio que já chegou aos 80 anos sem nunca ter
feito nem um dia de atividade física; cita Caymmi, conhecido
como o pai da preguiça, que vive deitado numa rede, bebendo,
fumando e mastigando e já chegou saudável aos 90 anos; depois
cita a tartaruga na sua lerdeza, que vive 300 anos; e finaliza
fazendo uma apologia ao sobrepeso e a obesidade, citando a
baleia que só bebe água, só come peixe, faz natação o dia
inteiro e é gorda.
Meu caro Xande, tomando como exemplo o menor mamífero que é o
rato da cana e o maior mamífero que é a baleia, pode-se realizar
um cálculo matemático envolvendo o tamanho do coração e o número
de batidas e todos vivem (exatamente, a não ser por acidente)
dentro de uma programação biológica estabelecida. O homem é o
único mamífero que quebra a lógica de seu ciclo de vida
estabelecido pela natureza e antecipa a sua morte. A programação
biológica do homem o levaria para a casa dos 114 anos de vida.
O que faz o homem antecipar a sua morte? Seguramente é a
convivência com os fatores de risco da vida moderna:
sedentarismo, tabagismo, obesidade, aumento da circunferência
abdominal, diabetes, hipertensão e estresse contínuo.
Quando falamos em valor prognóstico de fatores de risco, não
tratamos do excepcional, tratamos do usual, do comum, do que
estatisticamente mais se repete. Vamos encontrar sim, poucas
pessoas submetidas a vários e perigosos fatores de risco e
longevos (isso é o excepcional), mas vamos encontrar bem mais
pessoas jovens envolvidas em poucos fatores de risco morrendo
cedo.
Sendo assim, meu querido sobrinho, continue magro, mantenha a
sua natação, fuja da tradição gaúcha e evite as belas picanhas e
costelas preparadas pelo Kramer, que você tem toda chance de
chegar aos 114 anos.
Embora, só o fato de ser torcedor do Grêmio, isso já lhe dá uma
chance enorme de adoecer por conviver com uma situação de
estresse contínuo – risos.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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