ESQUINA CULTURAL
O respeito pelas paixões

Quem acompanha o que tenho escrito semanalmente pode ter ainda na lembrança uma prosa que escrevi há mais de quatro anos, no dia em que a minha filha Alana (que quer dizer alada; a que tem asas para voar), ainda menor de idade, fugiu de casa com o primeiro namorado, intitulada "Por amor". Naquela prosa, deixei estampado o meu sofrimento com aquela atitude (ainda para mim considerada precipitada), e a escrevi na esperança de que, sendo lida por ela, funcionasse como um convite de retorno ao seio familiar (totalmente atônito com aquela saída precoce e inesperada).

Esperei por muito tempo que refletisse a decisão tomada, e também por muito tempo mantive a esperança de que um dia a campainha do portão lateral ia tocar, e alguém gritando me avisaria: painho, a Lanlã voltou. Foram muitos anos de espera inútil, e mesmo de falta de informações. Passamos longa temporada sem nenhuma notícia dela, até mesmo nem sabíamos como estava vivendo, se estava estudando, onde estava morando, o que comia, como estava cuidando da saúde, e se estava feliz ou arrependida com a atitude tomada. Cada dia que se passava crescia a saudade; e o desespero, meu e de Inês, era mais intenso nas noites chuvosas quando adormecíamos, cada um tentando esconder do outro "os fungados da saudade".

O tempo passou (para nós, e acredito também para ela, lentamente). Agora, ela reside com Philipe num Bairro simples de Salvador, e leva uma vida austera e feliz, dentro das condições que almejou. No mês de junho fui visitá-la e tomei conhecimento de que estavam casados civilmente. Resolveram dar à relação vivida também um formato legal. Perguntei-lhe se não desejaria oficializar a relação também diante de Deus. Ela, dentro de sua simplicidade tão cativante, perguntou-me: "e você faz uma festinha para mim?". Disse-lhe que sim, e que durante as férias de julho daríamos forma àquele compromisso (naquele momento já oficialmente selado).

Nessa terça-feira passada, levei Alana ao altar para receber de Deus as bênçãos numa relação de amor que se desenvolveu em meio a tantos percalços. Foi uma cerimônia simples (do jeito que ela nos pediu), apenas acompanhada e participada por familiares, e um restrito grupo de amigos que, de longe, sempre acompanharam e torceram por um desfecho feliz. Foi muito difícil para mim esconder a emoção experimentada naquela cerimônia. A todo o tempo vinha à minha cabeça que tudo poderia ter sido escrito de forma diferente sem tanto sacrifício e sem tanta dor (para os dois lados). Ainda não estou convencido de que poderia ter tido como pai um comportamento pedagógico diferente. O tempo ainda poderá me oferecer essa resposta, nas atitudes dos outros nove irmãos. O pensamento que dominou a minha atitude, e de Inês, naquela oportunidade, foi a de que "é melhor perder um boi do que perder a boiada". Hoje posso dizer que, mesmo que estivéssemos equivocados, a boiada se recompôs. O sofrimento fez amadurecer o amor entre a gente, e a solidariedade entre os irmãos foi alimentada pelo sentimento sempre renovado de que, embora longe, a Alana continuava sendo uma filha querida, e, para eles, uma irmã digna de todas as atenções.

Agora, Philipe e Alana resolveram percorrer um caminho (para nós) bastante comum. Resolveram adotar uma criança, e assim me deram um segundo neto (que recebeu o nome de meu pai e de seu tio padrinho). No dia em que recebeu o Mário em casa ela ligou para comunicar a sua mãe a decisão (já tomada). Pelo telefone ela disse para a mãe mais ou menos assim: "mãe é incrível, o amor é o mesmo de um filho natural. A gente se apaixona no mesmo momento".

Que bom, minha filha, que você tenha entendido isso. Principalmente agora que passou o tempo da paixão e começa para você e Philipe o tempo do amor e do compromisso. O que posso lhe dizer ainda, minha filha, é que você conquistou o direito de ser feliz e, por isso, recebeu na celebração de seu casamento a benção de Deus, e também a de sua mãe (porque a de seu pai já havia recebido desde que passei a respeitar as paixões).

Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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