ESQUINA CULTURAL
REMÉDIOS QUE NÃO CURAM

Há fatos que passam despercebidos, entretanto, uma vez conhecidos, causam preocupação. A Anvisa - sigla que identifica a empresa brasileira que fiscaliza a produção e qualidade dos remédios - proibiu a comercialização e venda de 130 medicamentos circulantes. Razões expostas: "não terem eficácia comprovada e oferecerem riscos para a saúde da população". E não era sem tempo, vez que tem havido denúncias da existência de graves efeitos colaterais causados por certos produtos farmacêuticos. A sucinta explicação da Anvisa, ao retirar os 130 produtos medicamentosos das farmácias, faz supor que vem sendo vendida mais de uma centena de remédios inócuos ou prejudiciais à saúde.

Não faz muito tempo, pediatras alagoanos chamaram a atenção para produtos farmacêuticos (descongestionantes nasais), usados em recém-nascidos, que provocam irritações nas mucosas das narinas. Ao refletir sobre esse assunto, veio-me à lembrança o comprimido anticoncepcional Microvlar (Lab. Schering), largamente usado no Brasil, que, em certa época, foi comercializado com farinha em lugar da substância original, sem nenhuma eficácia. Provocou milhares de casos indesejáveis de gravidez.

Recentemente, foram tirados de circulação e proibida a venda de dois antiinflamatórios muito conhecidos: O Vioxx (Lab. Merk) e o Celebra (Lab. Pfizer). Eram elevados os riscos de infartos do miocárdio, complicações cardíacas e digestivas que poderiam provocar. E, nisso tudo, uma agravante. Há cinco anos, pesquisadores europeus já haviam alertado para essa possibilidade, porém, as indústrias farmacêuticas relutaram em tirar os remédios do mercado, temendo prejuízos aos investimentos financeiros realizados. O número de pessoas que morreram em conseqüência do uso desses antiinflamatórios, não se sabe ao certo. Um famoso médico dos EUA, autor de livro de sucesso, afirma que "a indústria farmacêutica americana é um sistema orientado pelo lucro, não pela busca de uma vida saudável".

Apesar dos riscos, tomar remédio virou mania. Existem pessoas que os utilizam por necessidade imperiosa e justificada, outros sentem-se gratificados quando a bolsa está cheia deles. São muitas as cidades em que há mais farmácias do que padarias; o pão de trigo está sendo substituído por comprimidos, drágeas e xaropes. Segundo dados oficiais, 13 mil remédios estão à venda, além de 2 mil medicamentos genéricos. Será que há uma fiscalização rigorosa sobre toda essa avalanche medicamentosa?

Uma historieta muito repetida. Conta-se que um propagandista de um grande laboratório farmacêutico, entusiasmado com o lançamento de um novo produto, bateu à porta de um consultório médico: Doutor, eu vim "inseminar" e "fertilizar" sua memória, com óvulos da sabedoria desse maravilhoso medicamento. O médico perdeu a paciência: alto lá, meu amigo! cuide de sua propaganda e deixe de lado a "fecundação" de minha memória, pois, decididamente, meu cérebro não é o lugar adequado para isso... O representante da indústria farmacêutica embatucou.

Vale a pena repetir: "Faça do alimento o seu medicamento".

José Medeiros

médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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