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Remédios com cartão amarelo
Semana passada comentei sobre a retirada de circulação de um
medicamento que ajudava a controlar o peso e tinha como foco a
redução da gordura visceral (diminuição da circunferência
abdominal). No final do texto citei os prováveis exageros dos
Órgãos Regulatórios, dando como exemplo a aspirina por estarmos
diante de uma medicação de amplo uso clínico, de indiscutível
ação terapêutica (seguramente salvando milhões de vidas), e que
se fossem considerados os seus efeitos adversos nunca teria sido
liberada para a venda ao público.
Nesta semana atendi uma cliente que chegou para uma visita de
rotina e trazia à mão a Revista Veja. Ela, então, me perguntou:
“doutor, o senhor já viu a lista de medicamentos que levaram
cartão vermelho e amarelo?” Como ainda não havia tomado
conhecimento da reportagem, interrompi um pouco a consulta e fiz
uma leitura rápida da reportagem.
Lá estavam listados, como medicamentos que receberam cartão
vermelho, uma estatina, vários antiinflamatórios, um remédio
para pressão e o mais recente proibido (Acomplia). Na outra
página estavam os considerados como cartão amarelo, ou seja,
estavam sob observação das Agências Regulatórias.
Entre os medicamentos listados como cartão amarelo (de
advertência), lá está a aspirina. O que escrevi foi uma
antecipação do que a reportagem estabeleceu. Sem considerar os
benefícios e apenas enxergando os prováveis malefícios, colocam
a medicação mais espetacular já produzida na alça de mira.
Para os que desconhecem, a ação terapêutica deste medicamento
vai além de sua ação analgésica. Ela é capaz de interromper um
quadro de enfarte agudo do miocárdio em fração de segundos, e
assim salvar uma vida. O seu uso crônico, diminuindo a
adesividade das plaquetas, pode evitar tromboses, muitas vezes
imprevisíveis e fatais.
A aspirina utilizada como um medicamento que oferece proteção
cardiovascular, geralmente é titulada em baixíssimas doses.
Lembro-me que certa feita assistia uma palestra de um
especialista em coagulação, quando lhe fizeram uma pergunta mais
ou menos assim: “qual a dose ideal para se utilizar cronicamente
a aspirina?” A resposta foi: “deve ser uma lambida num
comprimido de 500mg e depois jogá-lo fora”. O que quer dizer ser
uma dose bem pequena.
Hoje já temos disponível aspirina em formulações que oferecem
proteção gástrica (tamponadas), diminuindo o risco de gastrite e
sangramentos gástricos.
O único cuidado que devemos tomar, quando de seu uso, é estar
atento para interrompê-lo quando for necessário realizar
qualquer tipo de cirurgia, por um período de sete a quinze dias.
Enquanto isto, temos drogas bem mais prejudiciais que são
vendidas sem receitas médicas: cigarro e bebida alcoólica.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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