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Reflexões inúteis
Semana passada estive no colégio de meus filhos. Tive que chegar
cedo com um deles que cumpria um dia de suspensão por ter
“agredido” um colega de classe. É sempre muito doloroso
enfrentar como pai essas transgressões. Foi a primeira vez que
lá estive motivado por esse tipo de comportamento. Antes,
conversei com ele em casa e ouvi a sua versão. Reprimi o gesto,
mas entendi como tudo aconteceu e, até certo ponto, considerando
toda a sua história de vida, penso ter sido uma resposta
natural, embora desnecessária, a outra agressão (coisa de jovem
que se resolve sozinha, se não tivesse sido presenciado pela
orientadora).
Aproveitamos para olhar também a sua evolução escolar, que é
registrada através das notas de aproveitamento. Já sabia que ele
estava indo mal, e no início do segundo semestre parecia não ter
evoluído, apesar dos reforços com aulas particulares (em três
tentativas diferentes) e estudo em casa todas as noites por mais
duas horas (vejo-o sentado, se está estudando é outra história).
Aproveitamos para conversar um pouco sobre a origem do
desinteresse dos jovens (alguns deles) pelos conteúdos ofertados
pelas escolas. Foi uma conversa muito interessante, e pude
sentir que muitas das angústias por mim experimentadas, como
pai, também estavam na agenda dos educadores, ali presentes,
como pontos de reflexões permanentes.
Saí dali mais uma vez pensando (reflexões inúteis) sobre a
crueldade do ensino (não do colégio) baseado em metas e não em
desenvolvimento humano. A regra cruel é determinada pela lógica
do ingresso na Universidade e que contempla o funil do
Vestibular, é alimentada por nós pais, que pagamos ao colégio
para ver essa meta alcançada (não penso assim), e executada
pelos colégios que estabelecem conteúdos programáticos adaptados
a essa cruel realidade.
Quanta bobagem os nossos filhos são obrigados a decorar. Quanto
conhecimento inútil ocupa a mente deles e também a de nossos
educadores. Conseqüência disso para os alunos: alguns se rebelam
e conseguem se libertar apesar da lógica perversa; outros
entendem a lógica e se adaptam a ela até conseguirem os seus
objetivos, quando então “jogam fora” todo o conteúdo assimilado;
outros permanecem, durante toda a sua formação, atônitos sem
entender o que está acontecendo; alguns se adaptam com o modelo
de aprendizagem porque têm mais facilidade de decorar; porém,
tenho pena daqueles que não entendem o que está acontecendo, não
conseguem acompanhar o rolo compressor de conhecimentos inúteis
e, por isso, se sentem incapazes e “desistem”.
Como tenho dez filhos acredito que vivo todas essas situações
concretamente em casa, por isso penso tantas besteiras
(reflexões inúteis).
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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