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As razões do coração
Estava escrevendo um editorial para a Revista Brasileira de Hipertensão, que é produzida pelo Departamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia, do qual estou presidente na gestão 2004-2005, quando usei argumentos para justificar a escolha da sede do nosso II Simpósio Nacional, que será realizado em outubro no nosso estado, utilizando dois velhos e conhecidos parâmetros: coração e razão. Para justificar a razão, nada mais importante do que usar todos os conceitos da racionalidade como: praticidade, operacionalidade, relação custo-benefício e, fundamentalmente, a esperada eficácia da opção assumida. Em outras palavras, o uso da razão confere mais segurança a qualquer projeto e deixa os seus organizadores mais tranqüilos e confiantes nos resultados. Quando justificamos a escolha pelo coração, o que pesa é a subjetividade e o emocional. Deixamos de lado o foco principal, que está ligado ao objetivo maior da escolha (sucesso pleno), para olhar os "arredores". Saímos do olhar apenas o "prato principal" para olharmos a "arrumação da mesa e o sabor das sobremesas". Decidir com o coração dá mais apetite por lidar com o imprevisto. É como escolher o local mais próprio para observar a lua cheia, e não contar com a imprevisibilidade do tempo. É permitir que o previsível também seja capaz de se emocionar com a escolha e vencer o imprevisível (como uma noite chuvosa e escura), não permitindo que a beleza de uma noite de luar seja ofuscada por uma "chuvazinha qualquer". A escolha pelo coração privilegia o luar caso ele seja observado ou não. Basta constar na programação que naquele dia a lua poderá ser observada em todo o seu esplendor, mesmo sem ter a certeza de que essa observação será possível. O coração escolhe a possibilidade de uma noite de luar, e a razão escolhe a probabilidade de uma noite chuvosa e de céu escuro.
Decidir com a razão é prever todos os acontecimentos (mesmo os teoricamente imprevisíveis) para não correr riscos desnecessários. Decidir com o coração é se dispor a enfrentar contratempos e adversidades com a alegria de ter ousado, em outras palavras, preterir a organização pela improvisação conseqüente (se é que existe algum tipo de conseqüência na improvisação).
Quem sabe uma alternativa de meio termo que pudesse contemplar um pouco de razão ao coração ou mesmo um pouco de coração à razão seja a escolha do "razoável". Seria como procurar dar racionalidade a alguns desejos do coração. A razão ficaria menos pragmática e o coração menos sonhador. Funcionaria mais ou menos assim: programar uma noite de luar, esperar por ela com muita obstinação (acreditando que ela virá), ter na verdade uma noite escura de céu fechado sem a presença visual da lua, mas no imaginário continuar acreditando que valeu a pena ter apostado na escolha, porque por detrás da escuridão da noite lá estará a lua esperada, que nunca falta. Mesmo os gestos de aparente pura emoção tem razões que até o próprio coração reconhece.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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