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Raro de se ver
Semana passada encontrei o meu amigo Amauri numa cerimônia de
casamento e ele, ao me avistar, cobrou que escrevesse alguma
coisa sobre Dom Luciano Mendes. Respondi-lhe que já havia
pensado nisso, mas a correria do dia-a-dia ainda não havia
permitido parar para refletir sobre essa perda que o Brasil e
humanidade sofreram há pouco tempo.
Conheci Dom Luciano quando militava ativamente no Movimento
Familiar Cristão e fui participar de uma Assembléia de Leigos em
Itaici (Sede da CNBB). Lembro, com certa nostalgia, das pessoas,
especialmente dos Bispos, que daquela reunião participavam. A
teologia reinante naquela época era a da Libertação, e alguns
Movimentos de Igreja refletiam Jesus Cristo à luz de Puebla e
Medellín. A opção, não excludente, era pelos pobres e pelos
jovens, e a luta política era pela democratização.
A Igreja foi, sem nenhuma dúvida, o primeiro espaço para
albergar pessoas com pensamentos progressistas e, muitas vezes,
por isso confundida como portadora de uma mensagem “encarnada”,
a cor do partido comunista. Dentro dela floresceram muitos
líderes políticos que fizeram a história do Brasil nesses
últimos 40 anos, e foram forjados até partidos políticos como
espaço de engajamento de líderes cristãos.
Lembro-me de um fato acontecido nessa reunião de Itaici, que
muito me impressionou: numa das noites, estava com um grupo de
amigos assistindo a um filme sobre a vida de Dom Oscar Romero.
Esse filme contava toda a trajetória de um padre conservador
(por isso chegou a ser nomeado Bispo) que vivia num país em que
a Igreja Católica possuía uma bela história de luta pelos
oprimidos. Dom Oscar Romero, depois de nomeado Bispo, passou por
um interessante processo de conversão e, de repente, assumiu
todo o sofrimento e toda a luta de seu povo como se fossem a sua
própria luta. Por isso, foi assassinado brutalmente durante uma
celebração eucarística, ficando o seu próprio sangue misturado
com o corpo e o sangue de Jesus Cristo.
O filme é muito forte, e toda a platéia estava comovida com a
brutalidade daquele assassinato, e ao mesmo tempo impressionada
com a coragem daquele cristão que assumiu a sua opção até as
últimas conseqüências.
Eu, lá no meu canto, impactado com o que estava observando,
comentei com meu colega de lado sobre essa “coragem” que invade
algumas pessoas, porque, conhecendo a minha limitação, sabia que
nunca teria aquela disposição de morrer por uma causa mesmo que
verdadeira.
Foi quando ouvi, de meu vizinho do outro lado, um comentário
mais ou menos assim: “meu filho, duro foi ir à missa de sétimo
dia de Oscar, havia informações de bombas dentro da Igreja, e,
ao entrar no templo, tive que passar por uma fileira de soldados
fortemente armados”. Levantei os olhos para ver quem estava me
contando aquela história, e constatei que era Dom Luciano
Mendes, um cristão raro de se ver.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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