ESQUINA CULTURAL
Raízes e asas

Muito já escrevi sobre o destino dos filhos e sobre o momento certo de partida para assumirem as suas vidas. Por enquanto, vou assistindo a ida e vinda deles, nesse desafio de busca de liberdade e de libertação do domínio paterno, e noto que a segurança maior (e muitas vezes a única) é a certeza de que a casa dos pais é o "porto seguro", que serve como ponto de apoio para qualquer tipo de experimento ou de aventura. Quem sabe, se pudessem ficariam sempre nesse ir e vir, na tentativa de descobrir o caminho mais seguro para um partir sem precisar nunca voltar. Então, o melhor e mais seguro mesmo (para eles) parece ser o ir e vir, "quando quero".

Para nós, que os vemos (e pensamos que os temos) sempre como nossas criancinhas (por isso continuamos exercitando o paternalismo inconseqüente), o desejo de que eles se vão é também paradoxal (vontade que se vão, com a força do ficar). Existe (impossível negar) uma vontade assumida de vê-los senhores de suas vidas, de que cresçam como pessoas, de que se desenvolvam profissionalmente, de que nos dêem muitos netos, mas, coexistindo com uma vontade, nem sempre revelada, mas real, de que nunca se separem totalmente de nossas amarras sentimentais (e dessa forma pecamos e nos deliciamos muitas vezes com esse equívoco).

Penso (logo insisto) que esse pode ser um problema de biologia (apenas para os filhos). Para os pais seguirá sendo um problema de lógica irracional (se é que a irracionalidade pode ter alguma lógica). Quero dizer que: o corpo humano, que se divide em cabeça, tronco e membros, poderia ter (além de colo para acolhê-los e ombros para apóia-los) mais duas partes em sua constituição: raízes e asas. Assim, dotaríamos os nossos filhos de todas as possibilidades biológicas para fazerem o caminho que desejassem com os seus próprios pés (ou asas). As raízes, que deveriam ser sempre profundas e fartas, serviriam para dar sustentação aos laços da vida real (que envolvem necessariamente sentimentos, em especial de familiaridade fraternal), sempre assentadas numa base que fosse possível oferecer firmeza, mas permitisse, de vez em quando, voar para dar vida aos sonhos e a imaginação.

O problema é que raízes e asas são conotações antagônicas, e uma impede a outra de exercer em plenitude a destinação para a qual foram criadas. O ideal seria que a maturidade fosse o balizador entre o fincar raízes (em volta dos pais) e alçar vôo (para a vida plena). Que ela (a maturidade) aparecesse como um tempo concreto na vida de nossos filhos, quando ainda não houvesse raízes tão profundas e nem vôos tão definitivos.

Quem sabe até, bom mesmo seria que o vôo definitivo fosse tão bem planejado que, ao baterem as asas, não houvesse nenhuma força de raiz fincada ao solo que fosse capaz de resistir, e que as amarras sentimentais fossem tão profundas (embora imaginárias) que propiciassem, de vez em quando (ao menos aos domingos), pequenos pousos para o abastecimento da alma.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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