|
Enfim, quase sozinhos
Sempre que falamos ter uma família numerosa ouvimos comentários
do tipo: é bom porque vocês nunca vão estar sozinhos. Embora
essa assertiva ainda seja uma realidade em nossas vidas,
experimentamos nessa última passagem de ano um pouco da sensação
de ficar quase sozinhos (eu e Inês).
Já havíamos decidido que o final de ano seria em casa, mas
prepararíamos uma ceia e aqueles que desejassem nos visitar
alguma coisa para beliscar encontrariam.
Depois do recado dado, percebemos, em seguida, a movimentação de
cada um para comemorar a passagem do ano nos locais de suas
preferências. Duas filhas se mandaram para Porto de Galinhas
(três dias antes). Outros dois (sempre em duplas) pediram-me
dinheiro para acompanhar um filho mais velho (já casado) num
reveillon organizado numa casa de festas, por outra família.
Mais uma dupla sinalizou que preferia se reunir com amigos e
assistir a queima de fogos na orla da Ponta Verde. Uma filha
(também já casada) prometeu passar para nos abraçar antes do
romper do Ano Novo.
Ainda cedo começaram a chegar os que haviam prometido dar uma
passada para abraçar “os velhos¨. Por volta de dez horas, a Inês
percebendo a inquietação resolveu colocar a ceia de final de ano
para não atrapalhar as diversas programações. Uma das filhas
estava tão apressada que não deu nem para esperar (acho que ia
para longe).
Como o horário de verão propicia duas comemorações (uma às 11h00
e outra às 12h00), com os que ficaram para o jantar ainda deu
para sentir a passagem do ano em família.
Em seguida, uma sessão de abraços e votos de felicidades para o
ano que viria e a casa foi ficando vazia. Restaram apenas os
pequenos, assim mesmo tendo que consolar a Louise que desejava
acompanhar a Tia Renata para dormir na casa dela, e os dois que
haviam decidido passar o reveillon na orla.
Enquanto assistia os últimos preparativos dos que ainda
permaneciam em casa fui cuidando de apagar as luzes, fechar
portas e janelas e seguir para meu quarto, onde Inês já estava
deitada. Aos últimos que partiam fiz as devidas recomendações,
para não voltarem sozinhos, para não consumir bebida alcoólica,
enfim para se cuidarem (coisas de pai). Abracei-os
desejando-lhes uma feliz passagem de ano e levei-os até a porta
de casa. No caminho da porta até chegar ao quarto, depois de
acionar os alarmes de proteção, com a casa às escuras e
macabramente silenciosa, fui pensando na vida, em cada um deles,
nessa preparação para viver o futuro novamente à dois, na
solidão, no vazio, e até mesmo no abandono.
Lembrei-me então que já havia experimentado essa mesma sensação
de vazio no ano passado, quando todos estavam em casa, mas a
Inesinha estava nos Estados Unidos. Pai e mãe são assim mesmo,
essa coisa besta de só sentirem presença quando ela é total. Não
existe essa coisa de mais ou menos, ou estão todos juntos ou a
ausência é maior que a presença.
Nessa perspectiva fui caminhando para meu quarto quando ouço
tocar o meu celular. Do outro lado da linha ouço a voz da
Inesinha me dizendo: pai, voltamos (a dupla da orla) do meio do
caminho e resolvemos ficar com vocês até a virada do ano.
Certamente a experiência de desejar estar perto e não poder
serviu para ensiná-la a não desperdiçar oportunidades de estar
junto todas as vezes que for possível.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
Voltar
|