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Público e privado
Construção difícil. É como se o público fosse o cimento e o
privado o tijolo (ou vice-versa). Um sustenta o outro e ambos
podem ser escondidos pelo reboco bem produzido. Quando olhamos e
admiramos a construção final nem lembramos que, bem escondidos e
inseparáveis estão cimento e tijolo. O ideal, e às vezes
arquitetonicamente mais elegante, é quando os deixamos
aparentes. Ambos estão juntos, mas visualmente separados.
Permitem que de longe possamos observá-los e dizer: que bela e
bem acabada construção.
Essa construção é a nossa vida. Vida de cidadão comum mesmo.
Muitas vezes confundimos e pensamos que público e privado é uma
mistura apenas encontrada em determinadas pessoas, ou como está
na moda, privativa de políticos. Neles, público e privado são
como paredes aparentes (telhados de vidro), ficam mais
descobertas e visíveis, mas em nada se diferenciam de nossas
vidas de cidadãos comuns.
Em cada um de nós esse binômio público e privado está presente,
e deve ser cuidado para que a nossa aparência (fenótipo) não
seja de uma construção torta ou mal acabada. À semelhança de
cimento e tijolo que se sustentam e vão lentamente configurando
a inacabada obra da nossa vida, assim vai sendo moldada a nossa
“figura” pública que surge de uma articulação transparente e
dinâmica com o nosso ser privado.
O dilema dessa construção é quando: a) misturamos tanto as duas
coisas que passamos a ter um aspecto de parede construída apenas
com cimento ou apenas com tijolo. Misturamos o nosso ser com as
coisas que realizamos em função de atividades públicas, para as
quais fomos delegados a assumir. Perdemos a consciência de que
uma coisa é a nossa individualidade e nosso direito até de
cometer erros nos nossos relacionamentos privados, e a outra
coisa é usufruir de delegações provisórias para também cometer
erros ou usufruir de vantagens pessoais; b) tentamos esconder o
nosso lado privado porque não é de interesse público, quando o
nosso lado público é revelador de um conjunto de atitudes
privadas (muitas vezes mesmo realizadas às escondidas) que
comprometem a nossa integralidade (ser público, e ao mesmo tempo
privado — ou vice –versa); e c) tentamos separar o privado do
público, ou seja, desconectar o que nos une. Quando o nosso
privado está comprometido dizemos que não interessa ao público,
e quando o que em nós transparece (que é o público) não é
coerente com os princípios de ética que regem a sociedade,
desejamos que permaneça escondido. É como se existissem dois
códigos: um que rege o ser privado, e outro que rege o ser
público.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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