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Pela primeira vez
O Natal para mim esse ano foi antecipado em mais de dois meses. Percebi o Tempo de Chegada de mais um menino Jesus ao mundo no mês de outubro, quando nasceu Hugo. O fato de ter sido o meu primeiro neto produz uma emoção especial. O nascer para a vida carrega esse mistério que nunca sabemos explicar. Senti, além da alegria, um misto de susto ao perceber uma segunda geração, fruto de meu ocasional e duradouro encontro com Inês, adentrando ao conturbado mundo, na frágil e tranqüila presença de meu neto. É assim como olhar para ele e pensar que a minha missão está chegando ao fim, e experimentar também a sensação de que a minha missão, na verdade, está agora é recomeçando. Ser avô para mim foi “morte e ressurreição”, e o impacto ainda demora até agora, porque morrer não exige nenhuma atitude de enfrentamento, enquanto que ressurreição exige o esforço de repensar nova etapa de vida.
O recomeço é bem marcado por atitudes concretas como ter que comprar um berço de apoio para ter em minha casa a presença desse menino Jesus; ter que voltar a conviver com um timbre de choro do qual já estava esquecido (os maiores choram num tom diferente, quando vão misturando a divindade com a humanidade não menos santa), e até a reforma da piscina, que determinava o fim de um espaço quase sem água reservado para os filhos menores, teve que ser reprogramada. Penso até que essa ampla reforma da casa que a minha mulher, de repente, se propôs a fazer, teve uma influência direta dessa nova presença que chega quase todos os dias e que se demora mais aos domingos.
Assisto a empolgação dos tios Lucca e Louise (na maturidade dos quatro aninhos) com a presença do sobrinho, e o carinho de tantos braços que se oferecem para segurá-lo enquanto dorme tranqüilo. Tive poucas chances de tê-lo ao colo e mesmo de vê-lo acordado, não tenho tanta pressa, acho que tenho ainda algum tempo para “esperar”. Quando acorda é sempre com fome e, nesse momento, prefere um tipo especial de braço de quem lhe oferece também o peito (aliás, oferece os dois e parece que ele os esvazia a cada três horas).
Esse Advento (tempo sempre presente que independe de datas no calendário), que esse ano foi antecipado em minha casa, tem possibilitado (a mim) refletir sobre a vida e sobre as dificuldades que os pais (marias e josés da vida moderna) se defrontam nos tempos de hoje. Não sei se ainda teria coragem de continuar vivendo esse papel de ser pai de novos filhos. Olhando para o meu neto, que dorme sossegado, chego a pensar que esse sono do menino Jesus é uma preparação para o tempo futuro de encontro com a agitada humanidade de seus pais.
Querido Hugo, que esse primeiro “mudar” de ano para você, que ocorre depois de amanhã, permita-lhe continuar o seu repouso preparatório para a vida, cercado do amor de tantos que já aprenderam a lhe amar desde o tempo em que você ainda era um projeto de vida e nem nome possuía.
Nesse meu desejo de externar carinho ao meu neto, quero abraçar a todos que me acompanham lendo os meus textos, desejando um novo ano repleto de acontecimentos positivos. Se pudesse, presentearia a todos com um menino Jesus à semelhança dele. Como não posso, reparto com todos a alegria e a felicidade que senti ao me tornar avô, pela primeira vez.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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