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A Primavera e o verão da existência
– “Boca de forno, forno!”. “Tirando bolo,
bolo!”. “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...” “O cravo
brincou com a rosa, a rosa...” Eram cantigas entoadas nas
brincadeiras infantis preferidas pelas meninas, ao anoitecer, de
uma fazenda em que vivi às margens do Rio São Francisco. A bola
que os garotos jogavam interrompia as brincadeiras femininas,
acredito que por ciúme de terem sido isolados dos folguedos. O
rio corria lá em baixo, no barranco, uma imensa caudal de águas
claras e de fortes correntezas.
Se a tristeza do entardecer emergia mística,
de imediato palavras-mágicas eletrizavam a garotada com o
anúncio: venham, a sopa vai esfriar! E eles, por graça,
repetiam: café com pão, bolacha não!
São inesquecíveis imagens que povoaram minha
infância nos idos da década de 1940. O rio, ainda intocado,
guardava as características da época do descobrimento. Não havia
hidrelétricas, nem represas. Durante as enchentes, anuais, as
águas se expandiam por quilômetros e quilômetros além das
margens, e, nesses alagadiços, plantava-se o arroz que garantia
a subsistência de muitas famílias. E aí, veio a primeira grande
agressão. As hidrelétricas de Sobradinho, Xingó e Itaparica
absorveram parte das águas do rio. Era o progresso, levando
iluminação a cidades e vilas, energia necessária ao consumo e à
modernização industrial. Quem arriscaria se insurgir contra o
progresso? Entretanto, a partir daí, o rio mingüou em largura e
volume de água. Em algumas partes virou riacho. Nessa época, a
melhor alternativa de locomoção dos ribeirinhos do baixo São
Francisco, era o transporte fluvial. O rio era o caminho
natural; as poucas estradas existentes eram quase veredas.
Se eu considerar a vida como um ano do
calendário, com suas diferentes estações climáticas, terei
descrito nos parágrafos anteriores, a primavera e o verão de
minha existência. Adulto, acompanhei as notícias dos onerosos
investimentos feitos pela Codevasf para organizar o plantio de
arroz na região, sem resultados imediatos conhecidos.
Vãs ironias do destino ribeirinho. Depois de
“violências” ao volume de água do rio, agora, somente se fala em
transposição. Dúvidas persistem. Há os que defendem como
insuperáveis os prejuízos econômicos e sociais decorrentes da
transposição.
Pescadores e pequenos agricultores que moram
às margens do rio, e que já se encontram no outono e no inverno
de suas existências, acompanharam muitas crises. Muitos deles
têm “doutorado” em sofrimento humano. E, nem sempre, encontram
respostas adequadas para os muitos porquês que atropelam suas
vidas.
José Medeiros*
(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde
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