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Um Presidente singular
Estou totalmente convencido de que o
Presidente Lula é mesmo um fenômeno. Por muito tempo duvidei das
suas qualidades, mas diante de sua popularidade, sempre
crescente, tenho que me curvar e reconhecer que quem estava
errado era eu. Ainda mais agora quando acaba de receber das mãos
do Rei da Espanha Juan Carlos, junto com o escritor mexicano
Carlos Fuentes (também cotado para receber o prêmio Nobel da
Literatura, que acabou sendo entregue ao francês Jean-Marie
Gustave Lê Clézio – que, se morasse no Brasil, ia terminar
perdendo o hífen), o prêmio Don Quixote de La Mancha. O motivo
foi o seu esforço para promover a língua e a cultura espanhola
no Brasil. Diante do Rei, antes de receber um belo prêmio em
dinheiro (cerca de 32 mil dólares), ainda brincou dizendo que
chegará o tempo em que os dirigentes espanhóis se dirigirão aos
brasileiros em português, e os dirigentes brasileiros se
dirigirão aos espanhóis não mais em “portunhol”.
Eu, que ficava surpreso quando ele falava sobre economia mundial
e chegava a dar conselhos ao Bush, agora estou deslumbrado com
esse tipo de reconhecimento internacional.
Isso tudo ocorreu praticamente uma semana depois dele ter ido a
Academia Brasileira de Letras para lançar oficialmente
(sancionar) a nova reforma ortográfica. Lá fez um belo discurso
mostrando a importância de se usar bem o vernáculo e,
oficialmente, introduziu as modificações que retiram acentos,
colocam e tiram hífens e acabam com os sempre inoportunos
tremas. Enfim, o nosso (já estou até me acostumando a chamá-lo
assim) Presidente vai evoluindo nos seus ensinamentos ao povo
brasileiro.
Enquanto não chega a reforma política e as outras tão esperadas,
ele vai fazendo outras reformas inesperadas e inusitadas.
Para mim, que ainda me atrevo a de vez em quando escrever, essa
reforma só vai complicar. Os hífens e os acentos não eram meus
problemas porque o world já corrige esses erros automaticamente.
Caso fosse possível, eu pediria ao Presidente para na próxima
reforma incluir as crases e as vírgulas. Quando digo incluir, o
que gostaria mesmo é que fossem retiradas – risos. Nunca acerto
onde colocá-las. E continuo vivendo esse eterno dilema.
Para o Presidente essa reforma ortográfica só teria sentido se
mudasse a concordância verbal e acabasse com o plural. O único
problema dele (além da popularidade - risos) ainda é onde
colocar o “s”, que poderia ser trocado por uma das três novas
letras incorporadas.
Enquanto esperamos a próxima reforma, vou repetindo o que já foi
dito, moramos num país plural que tem um Presidente singular.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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