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Possessão
Tivemos recentemente
dois bárbaros crimes que comoveram nosso Estado. Um bandido que
assassinou duas criancinhas, depois de violentá-las sexualmente,
crime sem perdão e sem explicações. Um outro, em que a própria
mãe, dizendo-se “possuída” exterminou duas crianças, nesse caso
seus dois filhos.
Vivi estranhamente dois sentimentos. Não consigo explicações
para o que aconteceu comigo. O primeiro sentimento foi de
revolta com o bandido que matou as duas inocentes crianças. O
segundo sentimento foi de uma pena enorme da mãe assassina.
Quando no dia seguinte, vi o rosto da mãe (desfigurado) nas
cenas do noticiário televisivo, que também apresentava fotos das
duas crianças, imaginei também a dor que certamente ela estaria
sofrendo. Não dá para entender como uma mãe, em perfeito estado
de equilíbrio mental, pudesse vir a cometer tamanha atrocidade.
Lembrei-me de uma ocasião, quando uma pessoa de minha família
ligou para mim aflita. Pediu-me que fosse até sua casa porque
uma empregada doméstica (já com algum tempo de trabalho) estava
possuída pelo demônio. Não sei por que ligou logo para mim.
Depois, confidenciou-me que me achando um tanto religioso,
poderia atuar naquele caso de “exorcismo”.
Sem saber ao certo com o que ia me defrontar, segui para tentar
solucionar esse difícil caso. Lá chegando, deparei-me com uma
cena muito estranha. A doce empregada, que sempre me tratava bem
e oferecia até umas comidinhas gostosas, estava transtornada.
Caminhado pela sala, assumindo uma postura semi-ereta, dizia
coisas sem muito sentido, e falava com a voz grossa como se
fosse de um homem. Ao me avistar foi logo dizendo: “afaste-se de
mim roupa branca (naquela época, médico ainda usava branco)”.
Tentei acalmá-la pelo convencimento, mas a minha atitude foi
nula. Num determinado momento, aquela criatura sempre comportada
e respeitosa, começou a dizer palavrões, e de repente (nos seus
quase 50 anos e obesa), deu um salto mortal, num curto espaço, e
parou na minha frente como se preparando para uma luta.
Não vou contar com a acalmei antes que destruísse a casa (com
uma força incrível e agilidade por mim desconhecida e
surpreendente), mas a minha estratégia funcionou. Ela acordou
como se fosse de um sonho, e logo em seguida ficou totalmente
envergonhada da cena vivida.
Não acredito em coisas estranhas, e nem do outro mundo. Não
acredito em espíritos do mal e nem em demônios, mas pude
presenciar o que a mente humana é capaz de subverter quando
acredita nessas coisas. As bruxas existem dentro da gente.
A empregada, depois da crise, ficou muito chateada. Pediu mil
perdões e só perdeu o emprego porque a minha familiar ficou com
medo dela ter outra crise. Posso dizer que acordou da
“possessão” com perdas mínimas.
O mesmo não posso dizer dessa mãe que matou dois lindos filhos.
Acredito na sua dor, e por isso não tive em nenhum momento raiva
dela, mas muita pena. A dor de “acordar” de um extermínio de
dois filhos é mais cruel que a própria morte.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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