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Talvez possa contribuir
Com a vinda do Papa Bento 16 ao Brasil, o debate sobre temas
polêmicos como o referente ao aborto deve aquecer. O calor do
debate foi dado pelo Ministro da Saúde, que defende ser esse um
problema de saúde pública e não problema religioso. A Igreja
rebate dizendo que o problema é fundamentalmente ético — a ética
do direito à vida. Vou tentar oferecer a minha contribuição a
este debate, a partir de uma experiência vivida por mim e por
Inês lá pelos idos de 1975. Formamos-nos em medicina no ano de
1973. Já casados viajamos para fazer residência médica na cidade
do Rio de Janeiro. No mês de setembro do ano de 1974, Inês
engravidou. Não era um momento muito oportuno para uma gestação,
mas como faltavam apenas três meses para o nosso retorno para
Maceió, concluímos que não haveria nenhum problema e a notícia
foi transmitida para toda a família com muito entusiasmo. Como
era o primeiro neto para a família dela o reboliço foi geral.
Naquela época morávamos juntos com vários colegas de residência
e houve um surto de rubéola. A Inês não apresentou nenhum
sintoma da doença, mas fomos instados por outros colegas a fazer
exames de sangue no sentido de afastar qualquer possibilidade de
infecção sub-clínica. Por indicação de amigos procuramos um
médico da área, considerado um verdadeiro cientista, que fazia
esses exames no Instituto Manguinhos. Como não havia nenhum
sinal clínico da doença esse exame foi realizado por excesso de
zelo, já que se tratava do primeiro e tão esperado filho.
O resultado do exame foi uma verdadeira bomba para nós e para
toda a família. A sorologia apontava para a possibilidade da
infecção, e o conselho fornecido pelo médico que realizou o
exame foi de que deveríamos realizar o aborto.
Como a nossa volta para Maceió já estava agendada para dezembro,
permitimos que a gestação evoluísse por três meses já com a
sentença de morte estabelecida.
Sem dúvidas foi o período mais duro de nossas vidas, e a decisão
já tomada (por indicação médica) foi cumprida logo que chegamos
de volta a Maceió.
Caso nos defrontássemos hoje com situação semelhante a nossa
atitude seria, seguramente, diferente. A ética da vida, que
fomos incorporando desde a vivência de uma cruel e desafiadora
experiência prática, nos ensinou definitivamente qual teria sido
a melhor opção.
Caso fosse-nos permitido retroceder no tempo e reescrever esta
triste e dolorosa história, a ética da vida prevaleceria sobre a
“ética da saúde”.
Obs.: a decisão final foi mesmo minha, e assisti Inês entrar na
sala de parto chorando. A maternidade, por ser expressão divina,
não contempla outra ética.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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