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O Piscinão de Ramos Chegávamos de um dia de praia e, ao virarmos a esquina de nossa casa, tomamos um susto porque o portão estava aberto e pelo menos seis menores de rua estavam com uma atitude suspeita de tentar entrar na nossa casa. De imediato, acionei a buzina de meu carro na tentativa de afastá-los de nossa porta. Eles, surpresos com a nossa repentina chegada, um a um foram saindo de mansinho. O portão estava aberto porque ainda tínhamos, trabalhando na reforma da casa, alguns pintores que cuidavam do muro externo.
Entramos em casa e, em seguida, caímos todos na piscina para um reconfortante banho. Nesse dia, até a minha mulher (que freqüenta a piscina raramente) resolveu se arriscar devido ao forte calor. De repente, olhamos para o portão e o grupo de crianças que havíamos afastado na chegada havia retornado. Todos de "olhos compridos" observavam o nosso banho. Uma delas, chamada de Danúbia, resolveu quebrar o silêncio pedindo que deixássemos também dar um mergulho. Ficamos por um certo tempo em silêncio, depois quebrado por Inês que me perguntou: tem algum problema se a gente convidar a todos para a piscina? Por um momento passou pela minha cabeça uma série de preconceitos - piolhos, sarna, bunda suja - mas logo chegou o bom senso e prevaleceu o pensamento: são apenas crianças.
Mesmo assim, antes de liberarmos o banho, passaram por uma bela limpeza no chuveirão (necessária, porque de fato estavam bastante sujos), com sabonete e tudo. Depois, foi uma alegria só. Os que sabiam nadar se aventuravam em belos pulos (tinham aprendido a nadar na lagoa, nos disseram), e os pequenos ficaram numa espécie de prainha, que mantivemos depois da reforma para esperar o neto.
No início do banho formávamos dois grupos, mas logo depois estava tudo misturado fazendo com que o Marquinho, dentro de sua espiritualidade tão peculiar, dissesse-nos: parece que estamos no Piscinão de Ramos. Lucca (o filho menor) ainda nos perguntou porque tínhamos convidado uns "maloqueiros" para tomar banho na nossa piscina.
A alegria deles não demorou muito tempo porque logo chegou alguém à porta (pensamos ser a mãe de algum deles) dizendo que estava na hora de ir embora. Tiveram ainda vários "últimos" mergulhos até a festa acabar.
Esse episódio deu-nos a chance de ficarmos refletindo sobre várias questões, como: por que essa crueldade das diferenças sociais não poupa nem as crianças; por que a pobreza provoca, em quem possui alguma coisa a mais, essa sensação preconceituosa de repulsa; por que achamos que o cloro não acaba com piolhos e ácaros, até quando não temos nem certeza de suas existências; por que passamos essa sensação para as outras crianças que são os nossos filhos; até mesmo, por que a simples sensação de tê-los olhando para o interior de nossa casa (aproveitando o portão que estava aberto) levou-nos inicialmente a pensar que pretendiam invadir e furtar alguma coisa e não apenas exercitar o imaginário infantil com uns simples mergulhos na azul e bem tratada piscina de um determinado "rico", que tem o privilégio de morar numa grande e bela casa na Ponta Verde.
Este acontecimento propiciou, para a nossa família, uma Páscoa antecipada.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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