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Tsunami no Piauí
Essa é, sem dúvidas, a palavra da moda que mais se pronuncia em todo o mundo, no momento presente, como sinal de tragédia. Sucessão de ondas grandes (mesmo gigantes) e rápidas que devastaram em minutos centenas de vidas, e que arrasaram economicamente várias populações que faziam do atrativo turístico a maior fonte de sustento.
Hoje, ao acordar, fui abatido por outra brutal Tsunami quando, ao abrir a minha caixa de mensagens, recebi a notícia do trágico (porque à semelhança das Tsunami, chegou como a força de uma devastadora notícia) falecimento de um estimado amigo, cardiologista da melhor estirpe, num acidente automobilístico que, além dele, vitimou a sua jovem esposa, uma de suas filha (possuía duas) e também de sobra a sua genitora. Ano passado, estive com o Jairo nas duas vezes em que visitei o Piauí, e na última (durante o Congresso Norte-Nordeste, presidido por ele) tive o prazer de ser recebido carinhosamente e de compartilhar alguns momentos em sua mesa (durante o jantar de encerramento), onde estava reunida toda a sua família. Fui apresentado a todos e pude captar a felicidade que estavam vivendo naquele momento em que ele (por merecimento, apesar de ainda tão jovem) fora escolhido para presidir o maior Congresso Médico de nossa região.
Na saída da festa, comentei com alguns colegas que formavam o nosso grupo a respeito de seu valor científico e também da retidão de caráter que aquele jovem (emergente da cardiologia brasileira) possuía, dizendo: ainda vamos ouvir falar muito nesse "menino". Apenas, não esperava que fosse tão rápido e de forma tão avassaladora, como numa tragédia provocada por uma Tsunami que atingisse de forma contundente todo o "litoral" médico do Norte e Nordeste.
Ainda sob o impacto de uma notícia muito dura para se acreditar, segui lendo o meu correio que estava repleto de e-mails, depois de uns dias de afastamento, e a mensagem seguinte, que me chegou através da Rede de Cristãos, foi um texto do teólogo Leonardo Boff, fazendo uma profunda reflexão do entendimento de Deus diante das tragédias (claro que para ele a fonte de inspiração fora a recente agressão à natureza pela própria natureza, muitas vezes confundida com o próprio Deus). Como sempre, em momentos de perplexidade, a pergunta que se faz é se Deus é bom e onipotente porque não evitou, ou mesmo, porque permitiu que acontecessem tragédias dessa monta. Ele, então, questiona: "se não evitou, é sinal de que ou não é onipotente ou não é bom".
No pensamento do teólogo, "diante de uma situação dilaceradora podemos alimentar, penso eu, três atitudes: de revolta, de resignação e de esperança contra todo absurdo". Prefiro ficar com a esperança manifesta, por exemplo, no milagre da outra filha de Jairo que escapou da tragédia, ou mesmo, como refletiu o teólogo: "na solidariedade do mundo todo para com as vítimas da Tsunami".
Acrescento a essa reflexão, que podemos ter diante das tragédias, ainda uma quarta alternativa que é não misturar Deus com essas coisas complicadas que a nossa inteligência não alcança, por mais que nos esforcemos, porque "Deus pode ser aquilo que não podemos entender" e muito menos explicar.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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