|
Estive pertinho do inferno
Semana passada tive que recorrer aos serviços da Unidade de
Emergência Dr. Armando Lages. Uma pessoa de nossa estima teve um
Acidente Vascular Cerebral (AVC). Num primeiro momento, pude
experimentar da rapidez e eficiência da equipe do SAMU que
chegou à minha casa antes de mim. Já fui médico urgentista e
trabalhei naquela casa nos primórdios de sua existência. Tenho
boas recordações daquela época em que, embora trabalhando com
uma equipe muito menor, ainda podíamos trabalhar num ambiente
saudável e com razoáveis condições de resolver os problemas
corriqueiros que acometem a nossa população.
Fazia um bom tempo que ali não voltava. O choque experimentado
foi demasiado. Aquilo ali pode parecer qualquer coisa menos um
local onde se possa oferecer ou prestar algum tipo de
assistência médica. Enfermarias superlotadas, corredores
entupidos de pacientes graves, fila enorme para atendimentos
menos urgentes, enfim, um ambiente constrangedor, imundo e
desumano. Assisti, nos poucos momentos em que ali permaneci, uma
parada cardíaca em pleno corredor, pacientes com veias
puncionadas e tendo que segurar o soro com a outra mão,
pacientes agonizando em macas improvisadas como cama, tudo isso
em meio a gritos de dor e inalando um odor insuportável de
pacientes sujos de fezes e de urina. O inferno deve ser alguma
coisa parecida com aquilo que ali presenciei.
Do outro lado da cena vi anjos. Profissionais de saúde das
diversas áreas, meus colegas médicos, enfermeiros, auxiliares de
enfermagem, assistentes sociais, técnicos, agentes
administrativos, enfim, uma porção de anjos trabalhando
incessantemente como se fosse possível, em meio a todo aquele
caos, ainda se cumprir os objetivos maiores da medicina: aliviar
a dor dos que sofrem. Por alguns momentos, um pouco em estado de
choque, apaguei de minha mente os sinais do inferno e fiquei
observando o movimento de vai e vem desse exército de abnegados
que trabalhavam como se estivessem num local apropriado e
confortável.
Entendo perfeitamente que estamos diante de um problema de
difícil solução. Muitos até poderão dizer, depois de meus
comentários, que falar é fácil; mas, se gestor fosse, daria
prioridade absoluta a essa questão. Até imagino que a solução
não está, necessariamente, numa arrumação física e nem
estrutural daquela casa. É uma discussão mais ampla que, no
entanto, se faz urgente.
Seria muito interessante que o Governador Teotônio Vilela (que
na terça –feira passada esteve tão perto, quando visitou as
obras do Trapichão) pudesse reservar uma data em sua difícil
agenda de trabalho para fazer uma visita a Unidade de
Emergência. Tenho certeza de que o seu coração, sensível aos
reclamos da população que o elegeu, teria uma atitude definitiva
diante de um problema crônico e grave que acomete os desprovidos
de planos de saúde.
Visitei por uma noite o inferno e encontrei anjos. Anjos que não
recebem, certamente, salários adequados ao trabalho
desenvolvido. Anjos que conseguem transformar, pela abnegação e
competência, uma experiência de inferno num momento de céu.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
Voltar
|