ESQUINA CULTURAL
Penúltimo desejo

Li, recentemente, que um deputado piauiense teve um último e estranho desejo atendido pelos seus familiares. Como nunca havia se curvado diante de nenhuma dificuldade da vida, gostaria (e foi atendido) de ser enterrado numa posição de “enfrentamento”, ou seja, de pé.

Ao ler a notícia eu, que já havia brincado com esse assunto desejando que os meus familiares (se possível) me cremassem (depois de absolutamente morto) e espalhassem as minhas cinzas dentro de um lago que fica em frente à minha casa de praia, achei a opção de permanecer de pé durante toda eternidade incômoda.

Repouso para mim (principalmente quando eterno) soa como uma posição mais confortável, ou seja, deitada (preferencialmente numa rede entre dois coqueiros). Lembrei-me, em seguida, de que essa posição não seria a preferencial para enterrar as sogras, que (dizem os especialistas) deveria ser sempre de cabeça para baixo porque, em caso de catatonia e um despertar posterior, a tentativa de escavação redundaria sempre na direção do eixo da terra – risos. No entanto, descobri que o meu pensamento de misturar minhas moléculas com a água que entra duas vezes ao dia no lago de minha casa também não me asseguraria uma eternidade repousante. O movimento das marés me levaria pelo menos duas vezes por dia a visitar a praia.

Certa feita perguntaram a três pessoas de distintos enfrentamentos diante dessa única e verdadeira realidade, que é a morte, o que desejariam ouvir (se possível) das pessoas presentes ao velório. O primeiro disse que gostaria muito de ser lembrado como um pai de família exemplar. O segundo, um pouco mais individualista, falou que gostaria de ser lembrado como um profissional zeloso e competente. O terceiro, menos ilustre e o mais otimista dos três, pensou um pouco e revelou: “eu gostaria mesmo de ouvir uma pessoa dizer assustada, olha, parece que ele está se mexendo”. Caso essa história tivesse espaço para mais um, e o quarto fosse eu, dispensaria qualquer comentário e, como bom diabético que sou, aproveitaria para fazer o meu penúltimo pedido: tragam-me um prato de ambrosia.


 

Marco Mota / Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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