ESQUINA CULTURAL
A PALMADA PEDAGÓGICA

José Medeiros*

Palmada já era? Este é o título do trabalho de uma especialista em educação infantil, sobre um assunto que divide opiniões. Este tema – palmada – entrou em discussão na Câmara Federal, no início da tramitação de um projeto-de-lei que prevê punições para pais e mães que aplicarem essa medida corretiva. O projeto pretende alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente, incluindo um item que estabelece: "...o direito da criança e do adolescente de não serem submetidos a qualquer forma de punição corporal, mediante a adoção de castigos moderados (palmadas) ou imoderados, sob a alegação de quaisquer propósitos". A iniciativa reabriu a discussão sobre o polêmico assunto.

É exceção, quem na infância não levou uma palmada no bumbum. Conta-se o caso recente de uma garota, de 13 anos, que estabeleceu com a mãe um diálogo, no mínimo curioso. – Mãe, meu bisavô dava palmadas no meu avô? A mãe parou, pensou e respondeu: sim, ele dava palmadas. A adolescente continuou: – Mãe , meu avô batia em você? A mãe respondeu: batia, sim, quando eu fazia traquinagens e exagerava nas bagunças. A garota foi incisiva na conclusão: - Mãe, você acaba de me bater. Não será o momento de acabarmos de uma vez por todas com esse "sofrimento hereditário"? A mãe embatucou. "Sofrimento hereditário?" Essa era uma expressão que ela não conhecia.

Resumo a opinião de uma educadora, com quem conversei, recentemente e a quem fiz essa pergunta: A palmada é pedagógica? Respondeu: "A palmada é estruturante (educativa, necessária), quando o procedimento da criança é de birra ou de insatisfação. É benéfica, quando é dada no limite necessário e faz a criança pensar no que fez de errado. Cabe aos pais explicar o porquê da punição. É absolutamente errada, quando usada com agressividade, raiva ou estupidez".

Conto-lhe o caso de uma conversa entre duas crianças, que insistem em ir para a piscina, e a mãe diz que não. Uma aconselha a outra: insista, "torre" o juízo de sua mãe, chore, esquente a cabeça dela, que ela cede. A mais nova chora e diz que não gosta mais da mãe. A mãe (vulnerável) termina atendendo ao desejo delas.

Opinião da educadora: "os adultos precisam ser adultos acima de tudo. Precisam ter sentimentos claros e um direcionamento educativo com os filhos". E conclui: dizer "não" requer postura firme, ajustada. O "não" de nada vale, se após alguns instantes ele vira um "sim".

Essa é uma polêmica vai durar muito tempo.

(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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