ESQUINA CULTURAL
Paixão e pileque

Descobri que meu filho adolescente estava "apaixonado" no dia em que o percebi escondendo o braço esquerdo na tentativa de que eu não percebesse uma marca feita, segundo o irmão caçula, com grafite quente. O pouco tempo de namoro já fora suficiente para que ele, apressadamente, resolvesse marcar na própria pele o nome de sua primeira "paixão". Podemos até dizer que os exemplos dos famosos possam ter influenciado o gesto, mas se fizermos um leve "esforço de memória", vamos descobrir que na nossa época isso também era bastante comum.

Não posso dizer que não fiquei triste e preocupado. Conhecendo um pouco mais que ele as fragilidades de uma paixão, não gostei de vê-lo tatuado definitivamente com as marcas de um provável amor passageiro.

Chamei-o para conversar e disse-lhe: "filho, eu não marcaria o meu corpo com o nome de ninguém, nem com o de sua mãe, que acredito seja a pessoa com quem estarei até o fim. Você tem um corpo bonito, agora todo malhado, e essa cicatriz que você provocou na tentativa de demonstrar o desejo de ser uma relação definitiva, logo vai trazer para você constrangimento".

A segunda etapa foi ligar para a mãe que, sendo dermatologista, compreende mais do que eu que marcas definitivas serão carregadas para sempre. Usei uma estratégia inteligente para aliviar a barra do Plínio. Ao ligar para ela com o objetivo de contar-lhe o ocorrido, comecei assim: Inês, você se recorda quando adolescente ter marcado com óleo de castanha quente o nome de sua paixão (que nem era eu) em seu braço. Ela, então, respondeu: sim, e por que isso agora, está com ciúmes? Então eu lhe contei: é que o Plínio acaba de fazer a mesma coisa que você fez quando adolescente. Não preciso nem dizer que a sua reação foi muito branda, e o que havia sobrado de pele no Plínio estava salvo – risos.

Dias depois, vivi também o primeiro pileque do Plínio. Chegou em casa acompanhado de um amigo (um pouco mais sóbrio do que ele), aos prantos, porque havia acabado o namoro e nesse dia já havia encontrado a "paixão" nos braços de outro. Chorava abraçado comigo num sofrimento enorme que deixou-me, e também a sua mãe, tão envolvidos no drama que até relevamos o pileque. Ele, malandramente, aproveitou para antecipar também naquele momento que as notas do colégio não tinham sido boas, mas fez logo a promessa de melhorar no segundo bimestre. Não deu nem para reclamar de nada, como pais, apenas restou-nos ter "compaixão" daquele sofrimento "tão profundo", que durou até o despertar no outro dia, quando já estava ao telefone articulando com outras gatinhas.

Hoje, paixão controlada (pensamos), esconde o local do braço tatuado com uma faixa. Quanto à paixão, nem sei se ela ainda lembra dele, ou se ele ainda lembra dela. À semelhança de sua mãe, irá carregar, para sempre, a marca de uma paixão fulminante, nascida da força e do fogo de um coração jovem, aflorando na pele de forma definitiva a finitude da paixão. Quanto a mim, apenas espero as notas do segundo bimestre para voltar a conversar sobre o pileque.

Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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