ESQUINA CULTURAL

País do faz-de-conta

Na internet circulou, nesse final de semana, trechos do discurso do Senador Jefferson Peres (PDT – AM), feito para uma plenária vazia, expressando todo o seu descontentamento com o exercício da atividade política depois de passar quase um mês em casa sem trabalhar porque o Congresso Nacional está paralisado.
 
No seu desabafo, que estranhamente (ou propositadamente) não repercutiu na mídia, ele diz coisas assim: “como se ter animação, em um país como este, com um presidente que, até poucas semanas atrás, até poucos meses atrás, era sabidamente – como o é – um presidente conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu neste país, e este presidente está marchando para ser reeleito talvez em primeiro turno”.

Segue, na sua indignação, com um questionamento por ele mesmo respondido: “será desinformação da população? Não, não é. Enquetes revelam que a grande maioria concorda que o presidente sabia de tudo e votam nele. A crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte da sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer. A democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas inconformado. Esta será uma das eleições mais decepcionantes da minha vida. É a declaração pública, solene, histórica do povo brasileiro de que desvios éticos por parte de governantes não têm mais importância”.
 
Termina seu discurso, praticamente se despedindo da vida pública, com uma declaração difícil de ser proferida por um político, falando mal dos seus eleitores: “um país que tem um Congresso desse, que tem uma classe política dessa, que tem um povo desse. Dizem que político não deve falar mal dos eleitores, mas eu falo, eu falo. Parte da população compactua com isso, é lamentável. E que sabe, não é por desinformação, não. E não é só o povão não, é parte da elite, inclusive intelectuais. Compactuam com isso é porque são iguais, se não piores”.

Embora buscando equilíbrio ao ler parte desse discurso, bastante validado pelo passado político de quem o proferiu (não pertence aos mensaleiros e nem aos sanguesssugas), não há como deixar de refletir sobre o papel do eleitor (especialmente dos esclarecidos).

O danado é que a vontade que me invade (falando como eleitor) é a de fazer o mesmo que fez o Senador quando disse: “para cá não quero voltar, não”. Mas sou obrigado, mesmo diante de toda a apatia e indignação, a “voltar”, para votar numa eleição em que a ética e a dignidade perderam antecipadamente.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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