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"É de fazer chorar... A letra que dá seqüência ao título (quando o dia amanhece e eu vejo o frevo acabar...) já havia, para mim, perdido o sentido há muito tempo. Carnaval passou a representar reminiscências e momentos de descanso, quando aproveitava para colocar muito trabalho atrasado em dia. Esse ano, nem sei por quê, resolvi aceitar o convite de minha mulher para ir "assistir" o Pinto da Madrugada, que podia ser mesmo chamado do "Pinto do meio-dia ou do começo da tarde". Chegado o dia, não sabia como ia cumprir a promessa oferecendo aos meus sofridos joelhos esse desafio jamais imaginado, mas promessa feita é para ser cumprida, ainda que comprida. Assim, um pouco fora do clima (tendo antes usado várias camadas de filtro solar dos mais potentes), fomos levados pelos filhos, que fizeram com a gente o que há muito tempo fazemos com eles: levá-los de carro até próximo ao "Gouveia" e largá-los na concentração do Bloco.
Acompanhei a multidão sem saber o que ia encontrar, mas já notava pelo percurso que os freqüentadores do Bloco possuíam algumas "deficiências", incorporadas pela faixa etária, e isso foi me tranqüilizando (pensava comigo mesmo: se essa turma chegou até aqui eu posso suportar alguns minutos desse sol escaldante).
Foram duas quadras de expectativa sem saber o que ia encontrar, mas ao chegar na Avenida senti uma emoção tão forte que o vexame foi salvo pelos óculos escuros, porque não contive as lágrimas. Como numa terapia de choque, retrocedi muitos anos na minha memória (viajando pela Rua do Comércio, passando pelo Fênix, Iate, Jaraguá Tênis Clube), e pude reviver exatamente tudo do que no passado já tinha experimentado e, de uma forma mágica, exatamente igual.
Que festa linda o Pinto da Madrugada patrocinava aos meus olhos e ao meu interior. Desejei ficar ali, naquele mesmo lugar, olhando o Bloco passar, vendo os amigos, ouvindo os mesmos acordes que no passado me emocionaram, sentindo a mesma alegria e a felicidade coletiva, mas nessa hora esqueci que não tinha mais joelhos e também caí na folia.
O Pinto da Madrugada recupera tudo de bom que havia no carnaval de antigamente, como: a democratização da alegria, nada de corda, símbolo de discriminação, separando os que tiveram de quem não teve dinheiro para comprar a camisa (que não deve servir como estímulo para quem tenha não comprar - senão o Bloco não sai); determina o fim da pipoca, porque ninguém pula fora, todos são convidados a pularem dentro; dispensa a ostensiva segurança, porque seus freqüentadores dão uma verdadeira lição de como a alegria saudável é aquela exercitada num ambiente fraterno. A única "briga" que presenciei, na verdade uma acirrada disputa, foi para ocupar, nem que fosse por alguns minutos, uma cadeira carregada por um dos foliões (no próximo ano vou levar a minha); recupera, na criatividade do "Cutucador de Viados", o bom humor dos foliões; na alegoria crítica dos "Urubus do Salgadinho", a presença do Fusco nos antigos carnavais; e, nas disputas de Bandas, a motivação e o envolvimento das diversas "tribos", como a de
Quebrangulo.
Saí de lá apenas com uma preocupação - risos: o meu irmão Murilo perdeu a mulher logo no início do Bloco e, até ontem, ainda estava por aí a procurá-la (embora ela tenha voltado para casa no mesmo dia). Ontem, ligou para mim um pouco triste para saber se eu tinha alguma notícia da Valerita e, quando lhe falei que ela estava em casa esperando por ele desde sábado da semana passada, desabafou (cantarolando): - Oh! quarta-feira ingrata, chega tão depressa só pra contrariar.
Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
Obs.: a história de meu irmão fica por conta da alegoria imaginativa do articulista. A Valerita
conseguiu encontrar ele (para sorte ou azar dele, nunca se sabe)
no mesmo dia. Ele foi localizado por minha filha Inês, que o
visualizou no Bloco das Pecinhas e fez o devido resgate.
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